terça-feira, setembro 26, 2006

Formalidades


As vezes fico espantando com a quantidade de formalidades que as culturas usam e acabam por tornar necessárias para a vida em comunidade.

Fui-me apercebendo desde há algum tempo que há formalidades que eu não dava muita importância mas que podem realmente fazer diferença a algumas pessoas, desde o cumprimentar com a mão, forte ou fraco, ou não cumprimentar, desde o beijo na bochecha aos dois beijos, ou mesmo à forma como me visto ou como deixo as pessoas se dirigirem a mim.

A verdade é que se os primeiros exemplos são de cumprimentos, afectividade, e apreço pelas pessoas, gestos que com o passar do tempo aprendi a discernir que são úteis para darmos a perceber aos outros sentimentos nossos, os últimos são de imposição de estatuto, e esses sim fazem-me extrema confusão. Adoro perceber que sou valorizado independemente do que visto, e sim apenas pelo que faço.

Ultimamente tenho estudado gestão, em particular gestão de empresas, grupos e equipas, e tal como eu previa em Portugal, infelizmente a mentalidade no sentido do respeito dentro de um grupo ainda está bastante atrasada... numa empresa a maior parte das vezes ainda precisamos de vestir o "fatinho" e de sermos o "Sr. Dr. Eng." para que haja respeito perante os restantes empregados.

Isso faz-me uma tremenda confusão...

Saber que em grande empresas como a Google ou a Apple em geral podemos andar de t-shirt e calças de ganga e tratar por "tu" não é nada de estranho, mesmo entre pessoas com estatutos dentro da empresa diferentes... o estatuto e respeito não se "mede" pela "distância" psicológica que temos da outra pessoa, podemos ser grandes amigos e mesmo assim termos estatutos diferentes, tratarmo-nos por tu, e mesmo assim um obedecer ao outro.

É estranho perceber que em muitas empresas portuguesas devido à cultura actual isto é virtualmente impossível...

Foi testado à pouco tempo numa empresa portuguesa o modelo de ser "obrigatório" todos os membros tratarem-se por "tu"... passado um mês todo a administração da empresa teve que ser substituida porque a empresa já estava segundo as palavras deles "uma bandalheira".

Senti-me bastante mal... de viver em Portugal um pais que gosto, mas que tem estas atitudes que tanto me entristecem...


Mesmo sendo assim, acho que nunca vou deixar de remar contra a maré, de mostrar que independentemente de tratarmo-nos por "tu" o respeito, advém sim, do respeito e admiração pela pessoa em si e pelo que fez, criou, imaginou ou simplesmente pelos seus ideais... que o que vestimos nunca nos distinguirá para melhor ou pior... a cultura dos valores acima das aparências e das formalidades instituidas.

Felizmente tive experiências e tenho agora professores, (que trabalham à muitos anos em gestão), que me ajudaram a ver que o que eu acreditava não só é possível como é funcional e poderá ser o futuro.

Será que será a geração actual a mudar esta mentalidade...

...ou continuaremos na idade das aparências?


Ps: Citando um dos meus professores em algumas frases que não tem só a ver com este assunto, mas que tenho bastante presentes que me fizeram pensar bastante:

"A liberdade dentro de uma empresa é essencial. A curto-prazo uma empresa sem liberdade pode ter sucesso mas a longo-prazo não o terá".
(Referindo-se a liberdade social, e liberdade para ter pausas por exemplo de 10 minutos durante o dia para ir ao ginásio, que se encontra, por exemplo, dentro da empresa)

"Não existe uma formula para a criatividade, existem sim ambientes propícios a ela. Não existe formação para A+B = ideia criativa, mas existe a possibilidade da fomentação de um ambiente onde é bastante mais fácil o aparecimento delas."

"A função mais nobre de um líder não é mais que formar outros líderes."

1 comentário:

Ilhota2 disse...

Quando entrares no mercado do trabalho, com toda a certeza verás, que a maioria se deixa levar ( e julgar) pelas aparências.
Mas é a sociedade em que vivemos !
O que, não quer dizer, que tenhamos que ser todos uns carneirinhos.Não ! Podemos e devemos assumir as nossas convicções e as nossas diferenças.
Claro que o culto provinciano do "sr.dr.", está enraizado.Mas nada como levar as coisas com a "leveza" que a nossa insustentável maneira de viver, nos obriga! Sem ondas e com uma boa dose de humor para despertar as consciências...