quinta-feira, agosto 16, 2007

Um sorriso....


Há algum tempo dei um testemunho sobre discriminar...

Pus muita gente a pensar como no dia-à-dia discriminam as pessoas com quem estão, em pequenos gestos que mostram tanto...

Muito poucos dias depois senti um abano do tamanho do mundo...

Estava a entregar com a Maria, uma carrinha ao Colégio onde estudei e donde é proveniente... quando surge um senhor de idade, chamava-se Pereira, irmão Pereira, (é jesuíta, ou seja da Companhia de Jesus)... disse-nos que tinha 82 anos, e perguntou-nos sobre o que fazíamos ali... falei-lhe do campo de férias que tinha acabado de fazer... pareceu baralhado... expliquei-lhe que tinha haver com viver com pouco para dar valor ao muito que temos... riu-se e disse "afinal ainda aprendo coisas já velho"...

Já o tinha visto algumas vezes, nunca tinha falado com ele, e confesso que a vontade naquele momento não era muita, tinha uma carrinha para descarregar, e tinha planos para o resto da tarde...

Não quis ser mal educado... ouvi as histórias dele, de quando era mais novo e geria uma empresa de ovos... como evitava ser enganado, e pouco a pouco fui ouvindo a sua filosofia de vida... deixei-me rir, era fascinante a vitalidade daquele senhor de idade...

No entanto para mim era mais um senhor que tinha pouca gente com quem falar e ali tinha achado uma oportunidade... e estava ali a ser seu bem-feitor... quanto me enganava...

Depois de bastantes risadas com as suas histórias e após ele perceber que tinha alguma pressa, ele pediu-nos 3 minutos para nos mostrar uma coisa... anuimos...

Levou-nos para uma oficina escondida nas traseiras da garagem, cercada por um jardim cheio de flores que nunca tinha visto... sorrindo disse "ora 3, 2, 1.. aqui vamos!" e abriu a porta...

Senti-me atingido por um carro a toda a velocidade... a revestir as paredes estavam quadros pintados por ele.. pelo mesmo senhor a quem não tinha dado quase importância quando começamos a conversa....

O sentimento aumentava cada vez mais, quando ele ia mostrando as esculturas enormes que tinha feito, e os aparelhos que tinha ido resgatar ao lixo e tinha restaurado... ri-me quase em lágrimas quando ele pegou num orgão que tinha arranjado, pondo-o a tocar e começando a dançar sozinho....

Ofereceu-nos um peixe a cada um, com a marca IP marcando a sua autoria... bem como um fruto que nunca tinha visto, e uma das plantas que tinha no seu jardim...

Deixou-me completamente deslumbrado, alheio as horas e ao resto do mundo... a sorrir... ele tinha-me mostrado um mundo fascinante... o seu mundo... sem receber nada em troca... e estava ali completamente eufórico apenas por o termos visto...

Despediu-se de nós a rir.... sai dali com lágrimas nos olhos...

Obrigado por ter partilhado o seu mundo!

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