sexta-feira, setembro 21, 2007

Partilha


Durante o campo de verão que animei este ano fiz uma das partilhas que mais me marcou... pela reflexão e pelo reacção que vi nas pessoas com as quais partilhei... desde ai esteve sempre presente, decidi então deixa-la aqui... não me lembro de tudo que falei de certo, nem deverá ter a magia que sinto daquela tarde... mas não resisti. Esta foi feita por mim e por um grande amigo, o Bernardo, vou tentar partilhar convosco como foi...



Discriminação & Generosidade

A ideia era falar sobre discriminação... e depois falar da generosidade das pessoas.

Parece algo bastante batido, falar sobre isso torna-se então bastante duro, falar sobre algo que já toda a gente ouviu falar... decidimos falar sobre experiências nossas... que fossem mesmo reais...

Começamos por um exercício simples, toda a gente sentada em roda e vendada, as pessoas eram trocadas de sitio por nós, já vendadas, e púnhamos as suas mãos na cara da pessoa ao lado... tinham que descobrir sem falar quem era... propositadamente alguns não tínhamos trocado... grandes amigos tinham ficado lado a lado... curiosamente, mesmo assim, não conseguiram descobrir quem era a outra pessoa... quando tiraram as vendas nem podiam acreditar...
Quanto aos restantes que tinham alguém "menos conhecido" foi giro ver as suas reacções a viverem alguns minutos como cegos...

Vendas tiradas, passamos para outro espaço, era espaço de oração... sentamos-nos... meia lua virada para mim e para o Bernardo.

Comecei a falar com um sabão azul, coberto de terra, na mão, perguntei o que era aquilo... depois das primeiras respostas tímidas começaram a surgir algumas confiantes.. afinal era mesmo um sabão azul... retirei a terra que o cobria, mostrando realmente o sabão e parti-o ao meio, mostrando o "coração do sabão" realmente provando que era um sabão azul...

- É assim que fazemos na vida muitas vezes, temos uma imagem de uma pessoa, nublada, com terra, sabemos que lá no fundo pode estar uma pessoa interessante, mas não nos damos ao trabalho de tirar a terra...

- É muito mais fácil gozar do que arriscar... uma pequena história verdadeira sobre isto, vem de um dia que estava na faculdade e um senhor, já com alguma idade, que estava a concertar algumas coisas lá, estava a tentar abrir uma porta de vidro para passar... com a quantidade de coisas que tinha nas mãos não conseguia. Muita gente assistia à cena, sentada nos bancos... no entanto ninguém se levantou.. olhei à volta, fez-me imensa confusão.. levantei-me abri a porta e vi um sorriso de agradecimento... Não sou de todo melhor que os outros, mas as vezes todos nós acho que podemos ter atitudes cristãs que nos fazem sentir bem, esta foi uma das minhas...

O Bernardo começou então a falar sobre um experiência que ambos tínhamos tido, na prisão de Coimbra, a visitar os presos da ala dos crimes mais graves:

- Foi num fim-de-semana chamado After-Xav, organizado pelos jesuítas, numa tarde haviam vários desafios, um deles era visitar uma prisão... achamos piada a esse, uuuhhh visitar uma prisão, que medo.. quando tomamos consciência já íamos na carrinha em direcção à prisão de Coimbra... depois da brincadeira inicial, agora era a sério... começaram por nos explicar a única pergunta que não podemos fazer a um preso "Porque foste preso?"... as dúvidas surgiam "O que vamos falar com eles?", "Eles tem acesso a informação do exterior?"... e com calma os noviços que nos acompanhavam diziam-nos que eles eram como qualquer pessoa, falavam de tudo, de futebol, de politica... Por conselho deles deixamos os nossos bens materiais no carro, entramos e logo à porta fomos revistados e deixamos o BI... começávamos a ter um nervoso miudinho conforme as portas de ferro se fechavam depois de passarmos... começamos a ter as primeiras exclamações de surpresa a ver presos a andar "livremente" pela prisão.. percebemos que o que vemos nos filmes não é a realidade... pelo menos não a portuguesa... não a daquela prisão...

Passamos pelas celas, e tivemos uma visita guiada feita por alguns guardas, e outros presos... rimos com as piadas, ficamos sérios com as exclamações de "falta de integração social e oportunidades" e especialmente absorvíamos cada momento ainda incrédulos de ali estar... finalmente fomos para uma pequena sala, sem cadeiras nem mesas como nos filmes, vazia e ao nosso encontro vieram os presos que desejavam conversar... conversamos, sobre a vida, sobre integração social, sobre como se vive numa prisão... sobre imensa coisa... percebemos que eram mesmo seres humanos como nós... houve um impacto fortíssimo em nós... aquilo não era uma realidade alternativa, poderíamos ser nós ali...

Houve um momento de silêncio, pedimos para cada um em silêncio pensar nas situações em que tinha discriminado alguém...

... algum tempo depois, pedimos sentimentos e palavras que surgissem na pequena reflexão: "Arrependimento, tristeza, mudança, estupidez.." o ambiente era pesado... sentimos o peso da discriminação em nós..

Tomei novamente a palavra...

- Vou-vos falar de uma experiência que tive, a não muitos anos, num campo de férias, fiz uma caminhada diferente... fui deixado com o meu grupo de 5 pessoas, num sitio que não conhecia, apenas com 1 mapa, 1 cantil, sem dinheiro e um telemóvel apenas para emergências. As regras? Chegar ao sitio de campo às 8 da noite, pedindo comida e água, e boleia em parte do caminho dado que eram quilómetros a mais para ser possível percorrer apenas a pé. Motivação? Confiar nas pessoas.

- Começamos, sujos de pó e terra, mas animados, apetecia-nos correr até ao campo... aquele desafio era no mínimo estranho, nunca tínhamos feito nada assim... andamos, andamos, andamos... o sol era escaldante, cedo a água acabou, perguntávamos e pedíamos agua, ao longo da manhã avançando a pé, estava a ser duro. A fome atacava. Pedimos em algumas casas... numa delas uma senhora já de idade queria dar-nos o seu almoço... ficamos abananados... alguém queria dar-nos o SEU ALMOÇO, não era brincadeira... alguém que nem sequer nos conhecia... generosidade... recusamos, tinhamos fome, mas estávamos cheios por dentro... continuamos a andar, nunca me esquecerei desse momento...

Nesta altura, vi sorrisos entre as pessoas para as quais falava.. também nunca me esquecerei desse momento.

- Andamos mais, pedindo... até que chegamos a um restaurante, e ai entrou apenas 1 de nós, estávamos mesmo sujos e não queríamos constranger ninguém... oferecemos-nos para lavar a loiça ou fazer outra coisa em troca de 2 refeições que dividiríamos entre nós. A senhora disse para aguardamos na esplanada, pediu desculpa, mas explicou que tinha receio que os seus clientes se afastassem devido ao nosso aspecto, rimos e aceitamos, estávamos de facto com um terrível mau aspecto e suados devido a passarmos o dia a andar...

- Conversamos alegremente, sentados na esplanada, quando vimos 5 pratos de sopa a chegarem... ficamos novamente abanados... agradecemos, explicando que podiam ser menos, iríamos com todo o gosto partilhar entre nós. A senhora disse para não nos preocuparmos, e comermos. Fomos comendo, alegremente, já preparando para o trabalho que viesse, era com gosto que o iríamos fazer... quando chegam mais 5 pratos com bitoques... nem tivemos palavras, conversamos novamente, dizendo que a sopa era mais que suficiente, ou que podiam ser menos pratos.. novamente a senhora sorriu e deixo-nos com 5 pratos... e daqui a nada voltava perguntando se queríamos café... levantamos-nos, tínhamos bem presente que isso já seria abusar. Perguntamos o que precisava que fizesse... e ela sorridente disse que não era preciso nada...

- Estávamos novamente a andar, e a pedir boleia... estava ser dificil, decidimos dividirmo-nos, combinamos um ponto de encontro e foram 3 para um lado, 2 para outro... pouco tempo depois estávamos a andar na mala de um carro, eram os organizadores de um festival de verão, que vendo o nosso aspecto pensaram que íamos para lá e pararam para nos levarem... fomos conversando ao longo da viagem a rir e a explicar o que estávamos a fazer, foi uma empatia rápida.. pouco tempo depois estavam a oferecer-nos os contactos e a dizer para se fossemos ao festival os procurássemos que íamos para os bastidores com eles... entretanto deixaram-nos e mais tarde apanhamos novamente outra boleia, já os 5 juntos. Esse senhor quando soube o que estávamos a fazer, ofereceu-se logo para nos ir levar ao sitio... recusamos muito agradecidos, a ideia era levarem-nos através dos caminhos que se cruzassem com os nossos...

- Chegamos! Depois de algum tempo a pé... e tínhamos um lava-pés à espera... feito pelo grupo que tinha chegado antes de nós... algum tempo depois éramos nós a receber a equipa seguinte... para quem ficou curioso, chegamos antes da hora limite :-).

Houve um silêncio grande... pedimos-lhes para pensarem nisto e o que poderiam fazer para o futuro...

...pouco depois pedimos para dizerem que palavras surgiam agora: "Mudança, coragem, alegria, generosidade"



Acabou aquela tarde...

...no entanto ficará para sempre gravada em mim...


Música associada: Switchfoot - Only Hope

1 comentário:

daniela disse...

é msm mt bom recordar istu, este momento, este BTS..as historias k nos kontas te foram sem duvida marcantes!! mereces msm tudo de bom..continua km essa tua boa vntade e alegria de viver :) bjinhu