sexta-feira, dezembro 07, 2012

Sem título

Este post não tem título.

Como poderia ter? É sobre algo inclassificável, algo que rompe todos os preceitos sociais e rebenta com o correcto.

Algo que para mim é inclassificamente....genial e bom. Uma espécie de contra-elogio funerário, que é o maior elogio possível.


O discurso de John Cleese no serviço funerário de Graham Chapman, ambos membros dos Monthy Python.




Graham Chapman, co-author of the 'Parrot Sketch,' is no more.

He has ceased to be, bereft of life, he rests in peace, he has kicked the bucket, hopped the twig, bit the dust, snuffed it, breathed his last, and gone to meet the Great Head of Light Entertainment in the sky, and I guess that we're all thinking how sad it is that a man of such talent, such capability and kindness, of such intelligence should now be so suddenly spirited away at the age of only forty-eight, before he'd achieved many of the things of which he was capable, and before he'd had enough fun.

Well, I feel that I should say, "Nonsense. Good riddance to him, the freeloading bastard! I hope he fries. "

And the reason I think I should say this is, he would never forgive me if I didn't, if I threw away this opportunity to shock you all on his behalf. Anything for him but mindless good taste. I could hear him whispering in my ear last night as I was writing this:

"Alright, Cleese, you're very proud of being the first person to ever say 'shit' on television. If this service is really for me, just for starters, I want you to be the first person ever at a British memorial service to say 'fuck'!"

You see, the trouble is, I can't. If he were here with me now I would probably have the courage, because he always emboldened me. But the truth is, I lack his balls, his splendid defiance. And so I'll have to content myself instead with saying 'Betty Mardsen...'

But bolder and less inhibited spirits than me follow today. Jones and Idle, Gilliam and Palin. Heaven knows what the next hour will bring in Graham's name. Trousers dropping, blasphemers on pogo sticks, spectacular displays of high-speed farting, synchronised incest. One of the four is planning to stuff a dead ocelot and a 1922 Remington typewriter up his own arse to the sound of the second movement of Elgar's cello concerto. And that's in the first half.

Because you see, Gray would have wanted it this way. Really. Anything for him but mindless good taste. And that's what I'll always remember about him---apart, of course, from his Olympian extravagance. He was the prince of bad taste. He loved to shock. In fact, Gray, more than anyone I knew, embodied and symbolised all that was most offensive and juvenile in Monty Python. And his delight in shocking people led him on to greater and greater feats. I like to think of him as the pioneering beacon that beat the path along which fainter spirits could follow.

Some memories. I remember writing the undertaker speech with him, and him suggesting the punch line, 'All right, we'll eat her, but if you feel bad about it afterwards, we'll dig a grave and you can throw up into it.' I remember discovering in 1969, when we wrote every day at the flat where Connie Booth and I lived, that he'd recently discovered the game of printing four-letter words on neat little squares of paper, and then quietly placing them at strategic points around our flat, forcing Connie and me into frantic last minute paper chases whenever we were expecting important guests.

I remember him at BBC parties crawling around on all fours, rubbing himself affectionately against the legs of gray-suited executives, and delicately nibbling the more appetizing female calves. Mrs. Eric Morecambe remembers that too.

I remember his being invited to speak at the Oxford union, and entering the chamber dressed as a carrot---a full length orange tapering costume with a large, bright green sprig as a hat - and then, when his turn came to speak, refusing to do so. He just stood there, literally speechless, for twenty minutes, smiling beatifically. The only time in world history that a totally silent man has succeeded in inciting a riot.

I remember Graham receiving a Sun newspaper TV award from Reggie Maudling. Who else! And taking the trophy falling to the ground and crawling all the way back to his table, screaming loudly, as loudly as he could. And if you remember Gray, that was very loud indeed.

It is magnificent, isn't it? You see, the thing about shock... is not that it upsets some people, I think; I think that it gives others a momentary joy of liberation, as we realised in that instant that the social rules that constrict our lives so terribly are not actually very important.

Well, Gray can't do that for us anymore. He's gone. He is an ex-Chapman. All we have of him now is our memories. But it will be some time before they fade.
 John Cleese Jan. 6 December 1989


domingo, novembro 25, 2012

12 Angry Men


Vi hoje um clássico, de 1957: 12 Angry Men.

Tenho algum preconceito, ou melhor, alguma dificuldade em ver filmes a preto e branco. Mas este derrotou todas as dificuldades e preconceitos e entrou para o grupo dos que considero os melhores filmes que já vi.

A história é simples: 
Um jovem porto-riquenho é acusado de ter matado o próprio pai e vai a julgamento. Doze jurados se reúnem para decidir a sentença, com a orientação de que o réu deve ser considerado inocente bastando apenas que haja dúvida(s) sobre a sua culpa. Caso não haja dúvidas, sendo considerado culpado pelos 12 unanimemente será automaticamente condenado à pena de morte.

É também um dos poucos filmes que vi também o remake e achei que conseguiu, com a sua actualização para a nossa época, melhorar o filme. Muito provavelmente pelos estereótipos mais evidentes para mim que usou. No entanto, não ofusca  nem um pouco a obra prima que é o original!

Alias, ambos diferem em muito pouco. O guião será provavelmente 90% semelhante, sendo apenas actualizadas as personagens para a actualidade.

Foi também um dos poucos filmes que senti que seria o típico argumento para um livro.. e no entanto conseguiu ser magnificamente encaixado num filme. Sem precisar de grande acção, efeitos especiais ou algo assim. É simplesmente um texto brilhante.

Obrigado aos dois que me recomendaram!

sábado, novembro 17, 2012

iOS vs Android | Totalitarismo vs Anarco-Liberalismo?


[Disclaimer: A análise do post abaixo terá com certeza falhas nas suas analogias, mas pretende passar a "big picture" nas suas comparações de tendências empresarias vs tendências sócio-políticas]



Existe actualmente uma batalha interessantíssima no software para dispositivos móveis....e não, não falo de especificidades técnicas que sejam só perceptível para os geeks nem do degredo das patentes e dos processos em tribunal entre as maiores fabricantes.

Falo de:

Apple
com o seu iOS (sistema operativo dos iPhones e iPads e iPods)

vs Google (e seus "aliados") 
com o Android (sistema operativo dos telemóveis Android da Samsung, HTC, LG, Huawei, etc..)


O que é curioso pouco tem a ver com software ou hardware. Tem a ver com a lógica social que cada uma utilizou para disseminar o seu sistema operativo e do paralelismo que há entre esta luta entre empresas e filosofias com a sociedade em geral.

Uma analogia, um pouco leviana, mas que tem alguns fundamentos:

O iOS preconiza um sistema fechado, uma espécie de "totalitarismo do software" com regras rígidas:
A Apple define o software final do utilizador e como deverá ser integrado com o hardware. Tem também o lápis azul da censura nas aplicações da App Store, sendo elas pré-aprovadas, e só estando disponíveis as que a Apple aprova segundo a sua extensa guideline.

O Android preconiza uma espécie de anarco-liberalismo:
Por um lado tem uma fraca gestão central, com o software e hardware a serem definidos por companhias diferentes (Google vs Fabricantes de Hardware), sendo que os próprios fabricantes de hardware podem alterar, ou como eles gostam de dizer "customizar" o software. Para além disto, o utilizador, pode ainda depois de tudo isto, ter oportunidade de mudar grande parte do funcionamento. Este dois pontos fazem-me fazer achar que há uma parte anarquica neste metodologia. Por outro lado esta anarquia tenta que seja o mercado a definir para onde quer ir que seja ele a escolher o que é melhor, com os fabricantes a tentarem ter dispositivos para todos os preços e com e sem customizações, com mais e menos actualizações... o que cai bastante na definição de liberalismo: o mercado define o futuro.

Bom mas porque é que terão enveredado por cada um dos caminhos?
No inicio começou por haver a Apple. Como era a única a oferecer aquele tipo de smartphone e ecossistema de aplicações pode aplicar um sistema totalitarista como o descrito acima. Embora houvesse vários "players" anteriores (Nokia por exemplo), nenhum tinha aquele modelo que ganhou logo imensa tracção. Claro que não se deve descurar a filosofia base da Apple, que é consistente com este tipo de opção.

Já com a Apple bem implementada, veio a Google com um modelo semelhante. Sem dúvida que inspirado no modelo da Apple. Poderia dizer copiado, mas isso já depende da opinião. A Google, com um "player" já implementado, para ganhar mercado, optou pelo espectro oposto indo para um modelo mais populista. 

Isto é muito semelhante ao que acontece sempre que existem governos totalitaristas, logo a seguir tende a haver uma mudança para o espectro oposto. E resultou. Quem não gostava das políticas da Apple tomou o outro lado.

Também tal e qual acontece nos estados/governos, depois destes dois puxões para cada um dos lados, começa-se a tender para um meio termo. Em Portugal, depois do 25 de Abril, viramos para o Socialismo e Comunismo.. será que empresarialmente acontece o mesmo?


Do lado da Apple já se nota menos rigor na aceitação de aplicações na sua App Store.

E do outro lado, na Google, curiosamente o está lentamente a tentar sair da anarquia, para haver mais controlo para evitar por exemplo a fragmentação (muitas telemóveis com versões antigas do Android sem update para a mais recente). Um caso claro disso é os parceiros estarem a a assinar acordos para garantirem a actualização de software em cada device por 2 anos. Outra é quem desenvolve aplicações Android (através do seu SDK) passar agora a ter que aceitar uma cláusula a indicar que não pode fazer nada que aumente a fragmentação.

Tal como na vida em sociedade, há visões quase opostas de como devem ser feitas as coisas. 

Tal como na sociedade ambas resultam em termos parciais, e ambas tentam  chegar a uma espécie de meio termo (sempre tendo em conta que será o meio termo nos limites da sua política inicial).



Acho muito interessante continuar a seguir estas tendências para perceber se continuaram a seguir as tendências sociais, ou se eventualmente começaram a mostrar para onde essas tendências irão.

domingo, novembro 11, 2012

Porque não gosto da ironia?


Este post devia ter o titulo "Porque é que racionalmente acho que a ironia é negativa, mas emotivamente as vezes deixo-me levar e a uso". 

A verdade é que este post é em si pelo timing ironico, dado que o último que fiz (ontem) usou em força de ironia. No entanto foi isso que me relembrou que não acho que o deva fazer frequentemente, alias acho que devo minimizar o uso da ironia a níveis residuais. 

E porquê? 

Simples, a ironia, na minha opinião é uma forma não só de dar opinião mas geralmente de realçar a nossa superioridade. Criamos a ideia que concordamos com uma ideia que a pessoa ou grupo para quem nos dirigimos por vezes concorda, para logo a seguir a ridicularizar. 

Poderia até ser uma visão pessoa da sua utilização, mas uma consulta à Wikipédia deu-me a seguinte definição: 

A ironia é um instrumento de literatura ou de retórica que consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa, deixando entender uma distância intencional entre aquilo que dizemos e aquilo que realmente pensamos. Na Literatura, a ironia é a arte de zombar de alguém ou de alguma coisa, com vista a obter uma reacção do leitor, ouvinte ou interlocutor. - Wikipédia


Todo o ser humano quando se sente atacado, tenta proteger-se e creio que a ironia faz com que a pessoa ou pessoas para quem falamos em vez de sentirem o argumento como uma opinião sentem como um ataque inesperado. Logo se fecham em defesa ou contra-atacam como qualquer animal que se sente de subito encurralado sem estar à espera. 

O argumento perde em si parte da força pela conotação de superioridade que lhe damos. 

Se o objectivo era ridicularizar algo, tivemos sucesso.
Se o objectivo era realmente dar uma opinião a alguém, com o objectivo dela o ouvir e até poder mudar com ele, geralmente falhamos. 

A ironia que pode ter muita utilidade no humor, parece-me então uma forma fraca de dialogo ou de transmissão de ideias.



Embora as vezes emotivamente caio no erro de ser irónico. Como com todos os que a usam é num sentido de superioridade, achando que obviamente a minha visão, ideia ou mentalidade é a correcta. Parece-me racionalmente que é um erro profundo. Infelizmente vejo socialemente cada vez mais este estilo a ser usado...

sábado, novembro 10, 2012

O Amor (segundo Hollywood)


O amor é algo que surge só num olhar. As pessoas cruzam-se na rua, e pronto, já está. Nem é preciso conhecerem-se, podem ter gostos radicalmente diferentes, e até ter opiniões radicalmente contrárias, mas se o primeiro olhar na rua foi fulminante está feito.


Vão começar uma relação que só irá terminar no amor eterno. Entretanto, até lá chegarem a sua relação vai ter problemas imensos de comunicação, normais claro, até porque quem ama à primeira vez também não está muito habituado a entrar em conversas, é mais de acção. Acção como quem diz, sexo, muito e rápido, quanto mais rápido melhor.


Nenhuma das pessoas vai falar com a outra sobre os problemas da relação, vão falar com amigos, alguns deles mútuos que vão criar situações para que as coisas se resolvam e por magia do amor elas vão resolver-se. 

É portanto fundamental que independentemente do motivo e do número de vezes que uma relação seja terminada por uma ou ambas as partes, se tente tudo para que a relação recomece. 

Entretanto, geralmente para dar emoção à coisa, pelo menos uma das pessoas deve abdicar não só do orgulho mas também do amor próprio, porque todas as relações que (re)começam com alguém a abdicar de si mesmo vão obviamente resultar. Houve um esforço que só pode resultar nisso!

Toda a gente sabe não podemos ser sinceros no amor, tem que se guardar as coisas para si, e só dizer num momento de emoção fulminante, onde ambos choram. Só no limite é que se faz isso. 

É óbvio também que se tem que estar sempre aberto para o amor. Mesmo que se esteja numa relação.. nunca se sabe quando um amor verdadeiro vai realmente aparecer. Até porque quando alguém trai alguém duma relação anterior para começar outra connosco, que é esta sim de amor verdadeiro, nunca nos irá trair. Afinal este é o amor verdadeiro.

É também claríssimo que no amor não abdicamos de nada. Somos exactamente igual a antes. 

No amor não há monotonia e geralmente é tudo espectacular. No amor há também pouca conversa, porque o outro sabe exactamente o que nós pensamos, por isso nem é preciso falar.



Nunca esquecer: a beleza é o mais importante. A personalidade gere-se com o tempo. Podemos moldar a pessoa até aos nosso ideais.... 



O ironia também se usa em Hollywood... mas neste caso foi usada por mim. No fim de contas acho mesmo é que no amor de Hollywood há pouco ou nenhum amor. Infelizmente é este "amor" que muita gente procura e vive...

quinta-feira, novembro 08, 2012

A minha visão política - Parte 1


I have come to the conclusion that politics are too serious a matter to be left to the politicians. 
- Charles De Gaulle


Esta também a minha opinião. Não é um atestado de incompetência, mas uma exultação a que todos intervenham no destino da sua própria aldeia, cidade e país. 


Para se poder fazer isto mesmo defendo que se deve saber do que fala. Portanto tenho-me tentado informar o máximo possível sobre as várias correntes filosófico-políticas, e apresento aqui a minha visão pessoal.

Tentei ir aos fundamentos, acho que a história tem um valor importantíssimo para formar opinião sobre o que quer que seja. Assim sendo, foquei-me na história da Europa e andei para trás até chegar a uma base que me pareceu um bom ponto de partida. Esta foi o nomadismo, a "política" dos povos nómadas, que não tinham "morada" fixa, eram normalmente caçadores-recolectores ou pastores. Pareceu-me pouco relevante para os dias de hoje, portanto segui para o que o  teórico escocês do Iluminismo, Lord Kames diz que sucede lhe sempre, o feudalismo.

O feudalismo, já se aproxima um pouco mais do que conhecemos hoje: o rei "oferece" terras aos senhores feudais em troca de lealdade militar. Os senhores feudais por sua vez põem os terrenos a serem cultivados pelos camponeses que por esse serviço têm uma parcela de terra onde podem morar e protecção contra ataques bárbaros. Estes tinham de dar ao senhor feudal parte das suas colheitas e geralmente ainda tinham que dar 10% como dízima à igreja.

Era portanto um sistema que criava classes sociais claramente diferenciadas, numa aristocracia. Existiam 3 classes:  nobres , o clero e os servos. Era muito rara a mudança de classe de um individuo. O nascimento determinava a classe à partida.

Foi um período em que se considera que houve fraca inovação tecnológica, presumivelmente porque os servos não tinham estimulo para produzir mais: o excedente seria tomado pelo nobre que era dono do seu feudo.

O feudalismo caracteriza-se pelo poder descentralizado, por uma economia baseada na agricultura de subsistência, trabalho servil, economia amonetária e sem comércio, onde predomina a troca. No entanto já se vê um aumento da organização do poder instituído do nomadismo para o feudalismo de uma maneira bastante acentuada. A propriedade privada assume um papel muito mais preponderante na sociedade.

Com a chegada à Idade Moderna (séculos XVI ao XVIII) surge o mercantilismo, tendo sido acompanhado por uma autonomia da economia frente à moral, religião e política, ruptura feita por meio dos conselheiros dos governantes e comerciantes. Com ela surgiu a ideia do Estado-nação e o fim da ideologia económica do cristianismo (crematística), inspirada em Aristóteles e Platão, que recusava a acumulação de riquezas e empréstimos com juros.  A pretensão mercantilista era que o mercado fechado (local) fosse substituído pelo mercado nacional e a medida de valor e meio de troca passasse a ser o ouro (em vez da troca directa mais comum no mercado fechado (metalismo). Era também incentivada pelos governos considerados mercantilistas, a manufactura, dado que se sabia à partida que a sua exportação daria mais lucro que a venda simples de matéria prima.

O Estado opta também por uma política proteccionista, aplicando taxas alfandegárias para favorecer a exportação, desfavorecendo a importação com o objectivo de manter a balança económica positiva. Isto era especialmente importante porque se considerava que o volume comercial mundial era inalteravel, ou seja o ganho de um teria que implicar a perda de outro.

O mercantilismo esteve muito ligado à época colonial, apontado para que as colónias só fizessem trocas comerciais com as suas respectivas metrópoles. O objectivo da metrópole era simples, vender caro e comprar barato.

O mercantilismo olhava para a intervenção do Estado como o meio mais eficaz para o desenvolvimento económico, tendo como tendência o fortalecimento do Estado no exterior. A riqueza privada é  considerada simplesmente um meio para o Estado em si enriquecer, estando este sempre acima do indivíduo.

O mercantilismo começou a entrar em declínio com as obras liberalistas que falarei a seguir, onde Adam Smith, na sua obra "A riqueza das nações", critica o mercantilismo com dureza, qualificando-o como uma "economia ao serviço do Príncipe".


As chamadas Revoluções Burguesas viriam alterar o paradigma, e introduzir o capitalismo...

Ora antes de mais é importante definir o que é o capitalismo, palavra tão utilizada hoje em dia mas que nem sequer tem consenso exacto na sua definição. Segundo a nossa amiga Wikipédia, uma definição possível de capitalismo é: "um sistema económico em que os meios de produção e distribuição são de propriedade privada e com fins lucrativos; decisões sobre oferta, procura, preço, distribuição e investimentos não são feitos pelo governo, os lucros são distribuídos para os proprietários que investem em empresas e os salários são pagos aos trabalhadores pelas empresas". 

Curiosamente, o capitalismo é um nome que muitos consideram pejorativo  indicando que se deve chamar liberalismo dado que é o nome que os seus criadores, John Locke e Adam Smith, lhe deram.

Geralmente o sistema liberal implica, segundo grande parte dos economistas, que o governo não tem controlo sobre os mercados (laissez faire) nem sobre os direitos de propriedade. Os economistas políticos realçam nele a propriedade privada as relações de poder, o trabalho assalariado e as classes económicas. 

Embora a própria visão seja algo subjectiva, há algum consenso sobre o incentivo desta filosofia politica ao crescimento económico, aumentando simultaneamente as diferenças económico-sociais.

Este consenso prende-se com dados empíricos, dado que entre os anos 1000 e 1820 a economia mundial cresceu 6 vezes (0,5 vezes por pessoa). O crescimento acentuou-se ainda mais de 1820 a 1998 sendo de 50 vezes (9 vezes por pessoa).

Friedrich Hayek, ao descrever o liberalismo, aponta para o carácter auto-organizador das economias que não têm planeamento centralizado pelo governo. Muitos, como por exemplo Adam Smith, apontam para o que se acredita ser o valor dos indivíduos que buscam seus interesses próprios, que se opõe ao trabalho altruístico de servir o "bem comum". Estas teorias chamam atenção para os direitos dos indivíduos e grupos para agirem como empresas na compra e venda de bens, terra, mão-de-obra e moda num mercado livre apoiados por um Estado que força os direitos da propriedade privada.

Existem várias visões sobre qual deve ser a interferência do Estado, de acordo com Gregory Mankiw, a intervenção governamental pode melhorar os resultados do mercado em condições de "falha de mercado", ou situações em que o mercado por si só não aloca recursos de forma eficiente. 

Um exemplo de falha de mercado é a poluição do ar, por exemplo, é uma externalização negativa que não pode ser incorporada em mercados, visto que o ar do mundo não é propriedade e consequentemente, não é vendido para uso dos poluidores. Então, muita poluição poderia ser emitida e as pessoas não envolvidas na produção pagam o custo da poluição, em vez da empresa que, inicialmente, emitiu a poluição do ar.

Mas existem bastantes críticos da teoria da falha de mercado que alegam que as políticas governamentais não são de todo perfeitas e que por vezes pequenas falhas de mercado, geram quando tentam ser corrigidas por um governo enormes falhas governamentais. 

Tudo isto fez com que Adam Smith argumentasse a favor do livre produção, mercado e recursos, defendendo que existirá com isso uma melhor disponibilidade de alimentos, habitação, vestuário e cuidados de saúde bem como a diminuição do número de horas trabalhadas por semana e a diminuição da participação das crianças e dos idosos no mercado de trabalho.



O "argumento final" do capitalismo é então que dado as oportunidades que oferece para o individuo de aumentar o seu "income" através de novas profissões e empreendimentos económicos este é muito mais benéfico e tem mais potencial que qualquer sistema tribal, feudal ou socialista.

Do outro lado da "barricada" está o inevitável Karl Marx, provavelmente um dos homens mais revolucionários de sempre...



[Continua...] 

segunda-feira, novembro 05, 2012

Think outside the box

Durante uma conversa há pouco tempo, ouvi dizerem que não gostavam do conceito "think out of the box" porque a cabeça não é uma caixa, portanto a frase não tinha sentido.

Tive curiosidade e fui ler de onde veio o termo.. 

Embora as origens sejam relativamente obscuras, existe algum consenso sobre o termo estar muito associado a um puzzle topográfico chamado "nine dots puzzle". Este puzzle:



Este puzzle é um desafio intelectual que consiste em tentar unir todos os 9 pontos desenhando apenas 4 linhas rectas, sem levantar a caneta do papel.

A resolução é fácil, e a frase "think out of the box" é a solução em si para ele. O puzzle parece difícil porque geralmente limitamo-nos à área definida pelos 9 pontos, uma espécie de barreira invisível.. mal deixamos de a ter em consideração, chegamos a algo simples como isto:





A solução generalizou uma frase que representa o conceito de pensar fora dos paradigmas comuns.

Podem ler mais na nossa amiga Wikipédia.

sábado, novembro 03, 2012

World Peace Games

Se tivesse que definir este blog diria que é mais filosófico ou ideológico e menos político. As "tags" ou etiquetas dizem bem isso, em mais de 9 anos só existe um post com "política". 

Hoje será o meu segundo duma série de vários que nasceram de uma reflexão política que tenho feito e que falarei num próximo post.

Por agora, queria partilhar aqui um vídeo de uma TED Talk que acho que mostra o que é a política na forma mais pura. Não tem filosofia explicita, não tem Marx, não tem Comunismo, Fascismo ou Socialismo, tem apenas democracia e crianças, o resto é jogo. 

Chama-se World Peace Games e foi criado por um senhor chamado John Hunter.

Não vale a pena explicar muito mais, o vídeo fala por si...
(não se desinteressem que o inicio do vídeo é mais sobre a vida do John Hunter e ele a explicar que ele é uma construção da vida e de todos os seus professores... logo depois vem o "nosso jogo").




Tenho pena de não ter tido um professor e um jogo assim. Acho que os adultos (caso jogassem isto com a seriedade dos mais novos), teriam tanto a aprender como eles...

Espero conseguir que, um dia, os meus (futuros) filhos o joguem...

sexta-feira, novembro 02, 2012

Ph.D



Há algum tem que me perguntava de que era o acrónimo de Ph.D, o equivalente ao nosso Doutoramento. Fui pesquisar e como quase sempre a resposta foi muito interessante, segundo a nossa amiga Wikipédia:

"Doctor of Philosophy, abbreviated as Ph.D., PhD, D.Phil., or DPhil in English-speaking countries and originally as Dr.Philos. (for the Latin philosophiae doctor or doctor philosophiae)"
As referências continuavam indicando que é um grau académico, conhecido como "Doctorate of philosophy", e que ao contrário do termo "filosofia" como o usamos hoje apenas se aplicar à filosofia em si, na sua origem Grega este significava "amor pela sabedoria". 

Em quase toda a Europa todos os campos de estudo tirando a teologia, direito e medicina eram conhecidas como "filosofia".


A filosofia é de facto a mãe de todas as ciências.

quarta-feira, outubro 31, 2012

As tribos de hoje em dia


Como quase sempre em mim, hoje mais dois pensamentos afastados convergiram num só, agora claro e quase tão evidente que faz duvidar porque não nasceram já assim.

O primeira já tem algum tempo, e nasceu em mim na mesma altura que falei aqui sobre futebol. Inicialmente reflecti bastante sobre as claques:

- Porque é que existem
- Porque é que tantas pessoas se ligam a elas
- Porque é que tem tantas vezes um comportamento tão primordial que ultrapassa o racional


O segundo, surgiu-me quando andava a pesquisar para escrever o draft do que iria dizer na TEDx. Li várias vezes o conceito da Pirâmide de Maslow, e se na altura o ponto que mais me interessava era a segurança.. a verdade é que fiquei com o ponto seguinte bastante entranhado, as necessidades sociais.



Como acontece quase sempre, sem eu notar estes dois pensamentos fundiram-se e fizeram-me perceber que o ser humano actual precisa, provavelmente, mais do que nunca de ser amado, querido por outros, aceite e necessário.

O ser humano é um ser social, e isso, arrisco-me a dizer, está bem entranhado no subconsciente. O sentimento de pertença é um sentimento reconfortante. Há milhares de anos o ser humano pertencia a tribos, cada uma das quais tinha rituais próprios. Cada tribo eventualmente poderia entrar em guerra com outras, e os seus membros eram chamados a lutarem por ela. 

Mais tarde estas tribos cresceram, passaram a ser paises, nações, que sobre uma única bandeira proclamavam unidade, no caso de Portugal unidade contra os "mouros" e "Castela". Era um sentimento visceral, ser Português era uma afirmação de pertença e de guerra contra os "inimigos".

Com o passado dos séculos, grande parte dos paises estabilizou as suas fronteiras e cessou as suas guerras. Passamos a ser membros de algo que não temos de defender, pelo menos contra inimigos que pertençam a outros. Deixamos de sentir que somos necessários para este grupo. 

Em consequência, deixando de nos sentirmos necessários, o nosso sentimento de pertença foi-se reduzindo. 

Fomos "andando para trás", do nosso país à nossa cidade, ao nosso bairro, ao nosso partido, ao nosso clube, à nossa faculdade...

E portanto a estranheza com que encarava uma claque de futebol e o que alguns dos individuos faziam por elas deixou de ser tão estranha. 


A submissão à praxe, pela forte sentimento de pertença posterior, deixou também de ser algo turvo.



Hoje temos tribos diferentes, mais pequenas, mais focadas, onde concentramos a nossa necessidade de pertença.


Enquanto não tivermos uma necessidade mais forte, que nos una novamente sobre uma única tribo, onde sintamos que somos úteis, continuaremos assim. 


Será que um dia, aqui em Portugal será capaz um líder com o carisma de um Braveheart (não da luta!), mas da sociedade...

...e unir-nos novamente sobre uma única tribo onde todos nos sintamos úteis?

domingo, outubro 21, 2012

TEDxCoimbra 2012 - Walkabout



Como expliquei aqui, no dia 20 de Outubro fui (com tanto orgulho, como nervosismo) orador da TEDxCoimbra.

Como muita gente me perguntou sobre o que falei, e tive alguma dificuldade em explicar e resumir, decidi partilhar aqui o texto integral base do que disse. Este texto foi o que escrevi alguns meses antes, quando preparava a apresentação, por isso está na primeira pessoa.

Foi também o texto que partilhei com a organização da TEDxCoimbra, a qual com muita coragem me deixou subir ao palco mesmo assim...

No fundo deste post deixo também os slides, que encaixam praticamente com o fluxo deste texto, excepção feita, à minha referência temporal à Filosofia vs Realidade que tentarei acrescentar aqui futuramente.





"Boa tarde, chamo-me Pedro Vicente.

Quando já tinha quase tudo pronto para esta talk, pensava como a podia introduzir.

Há algumas semanas, por coincidência jantei com algumas pessoas que não conhecia de um movimento de campos de férias para crianças (chamado Gambozinos), e sabendo elas que eu pertencia a outro movimento de campos de férias e que tinha exercido algumas posições hierárquicas lá perguntaram-me por curiosidade que posição é que eu ocupava agora... fiquei pensativo, afinal durante bastantes anos tinha sido sempre alguma coisa o que era agora?

A minha resposta, meio a rir pela constatação foi: “Sou o chato!”.

Sou aquele tipo que envia propostas, que envia perguntas, que faz com que a direcção não se acomode, e esperemos que, como isso traga ideias novas, ou o fortalecimento das antigas.

Ouso dizer que é exactamente o que vou ser hoje. Chato.

Venho mais que tudo por problemas e dúvidas e poucas ou nenhumas conclusões, quero por-vos a pensar, e não dar-vos soluções (porque também não as tenho)... eventualmente durante essa exposição vou falar-vos da experiência mais louca que já vivi...


 Para começar, deixem-me voltar atrás no tempo para contextualizar...

Andamos para trás para o século 19, mais exactamente para 1859 nos Estados Unidos da América onde um senhor chamado Frederick Douglass - antigo escravo, que se tornou líder do movimento abolicionista (da escravatura) e ganhou notoriedade pela sua extraordinária oratória. Era o exemplo vivo contra os argumentos que os escravos não tinham capacidade intelectual para serem cidadãos americanos independentes.

Esse senhor deu uma palestra que tornou o seu conceito de self-made man famoso. Esse conceito, foi crescendo e engrossando as suas raízes no "American Dream" popularizado pela definição de James Truslow Adams (1931) de que um homem pode contra todas as probabilidades quebrar a sua posição e subir a chamada "escada social" [1] .

Esta mistura cresceu, associando-se a outras acabou por se espalhar pelo mundo numa espécie de "I can do attitude".  Temos uma admiração por estas pessoas, do "I can do" que geralmente estão associadas ao sucesso... porque são teimosas o suficiente para acreditarem que a ideia que têm vai ter sucesso e tentam até ter!

É algo muito visto no empreendedorismo, onde há muitas palestras sobre isto, mas também na política (Não se esqueçam que Benjamin Franklin era político p.e.), e até na educação onde se pretende que esteja em vigor uma espécie de meritocracia.

Queremos afinal que quem tem a capacidade de fazer, de empurrar o mundo nem que seja à cabeçada tenha o espaço para o fazer, e o mérito por o fazer.

Mas.. e acho que já imaginavam que vinha ai um mas...infelizmente, acho que estamos a falhar... em 3 pontos.


Sucesso
Comecemos pela educação!

Estamos a educar para o sucesso... quando o primeiro caminho para o sucesso é o falhanço.

Passo a explicar: hoje em dia felizmente já ouvimos muitas histórias de empreendedores, e já todos sabemos que para uma ideia ter sucesso provavelmente vai ouvir muitos nãos ou até falhar em 10 ideias antes. No entanto, um bom aluno, geralmente começa a sê-lo desde criança, com o empenho dos pais a incentiva-lo e continuará até se tornar autónomo provavelmente ir para a universidade e quem sabe conseguir um emprego quando acabar o curso (na minha área até é possível que seja durante). Este aluno nunca experimentou o falhanço. E ainda bem, é sinal que é um bom aluno.

No entanto não é quase conhecimento geral que para ter sucesso na "vida real" ele falhará antes?
Como lidará ele com esta frustração?

Está habituado a viver na segurança do êxito. Atenção que disse segurança do êxito propositadamente. A segurança do que temos é muito importante para nós enquanto ser humano. Embora o conceito da pirâmide de Maslow já tenha sido refutado, acho que ainda é válido apontar para o segundo degrau da pirâmide e ver lá SEGURANÇA.

Será que temos que mudar a educação para reflectir o paradigma que valorizamos?


Self-enpowerment & Segurança

O segundo ponto, é já uma reflexão mais pessoal... Identifico-me muito com "I can do". Uma espécie de self-enpowerment, uma teimosia dos tempos modernos, que converteu o negativismo da teimosia em força.... E ainda mais porque como sou bastante teimoso, devo ser um tipo cheio de força ( :-) )

No entanto este self-empowerment pode dar azo a um "egocentrismo do mérito".

Vivemos numa espécie de sociedade de Kant.... mas em esquizofrénico, em que só o que pensamos que sabemos que é existe...no entanto vivemos e trabalhamos em sociedade.

A atitude diz "Porque eu me esforcei, eventualmente, eu vou ganhar" e venda-nos a visão que existe um contexto, existe uma sociedade fora da minha cabeça. [2]

Aqui encaixa o que realmente vos vim falar... uma experiência que mexe com a segurança que falamos atrás, que mexe com o êxito, que nos faz sentir realmente que a filosofia evoluiu do idealismo de Kant para "Eu vivo no mundo" descrito por Ortega y Gasset.

Desde pequenos os nossos pais sempre nos disseram:
- "não fales com estranhos... "
- "não apanhes boleia.."
- "não aceites comida de outras pessoas.. "
Ok... até agora enquanto adultos!

Podem dizer que isto é uma precaução para evitar riscos maiores... diria até uma segurança. E será que foi uma coincidência usar a palavra segurança?

Hoje falo-vos duma experiência radical, de corte com a segurança, e em que vivemos mais do que na sociedade, vivemos verdadeiramente numa prova de confiança da sociedade.

Esta foi a minha experiência de Walkabout.

Esta experiência consiste em durante alguns dias deixar tudo para trás, romper a segurança. Tal como todas as grandes viagens, nesta o destino será o menos importante, a viagem será o que realmente importa. 

Chamemos a esta viagem, peregrinação, ou caminhada de pobreza. Nesta caminhada, não levaremos comida, telemóvel.. ou outras coisas que não sejam absolutamente essenciais. Pegamos numa mochila, com saco-cama, algumas mudas de roupa e partirmos com um destino.

Mas antes que pensem que enlouqueci, vamos dar um passo a trás e deixar também só de ver o "eu" e ver também o contexto. Estudei num Colégio em Cernache (arredores de Coimbra), chamado Colégio da Imaculada Conceição, um colégio de associação (instalações privadas, mas de ensino público e gratuito).

É um colégio da Companhia de Jesus, ou seja dos jesuítas, (ou simplificando de padres católicos) que tem interesse em formar no que eles chamam as 4 componentes: Pessoal, Social, Religiosa e Académica.

Durante o Verão este colégio faz em conjunto com mais dois outros colégios (Colégio São João de Brito em Lisboa e Colégio das Caldinhas em Santo Tirso), acampamentos de férias para os seus alunos, uma espécie de escuteiros.. mas em versão homem... (estou a brincar), chamados Campinácios.

Tal como nos escuteiros, são as pessoas que foram "animadas" em campos, que a partir dos 18 anos passam a poder "animar" ou como é mais conhecido ser "monitor" de outros.

Foi neste contexto que durante uma formação para poder ser "animador/monitor", o "director" do campo, um padre jesuíta, me disse para calçar calçado confortável (para caminhar) e pegar numa mochila e num cantil e nos deu por último um mapa.

Algumas horas depois estava a 37 kms de distância do local onde estávamos acampados com mais 5 pessoas - perto de Paredes de Coura.

As seguranças que terminaram logo ali?
- certeza que íamos comer
- certeza que íamos ter água para o caminho
- certeza do caminho que tínhamos que percorrer
- certeza que íamos chegar quando combinado

Caminhamos com um rumo, mas especialmente com uma certeza, ali nem tudo dependia de cada um de nós.

Nesta caminhada vivemos apenas do que os outros aceitam oferecer-nos, gratuitamente, ou em troca de algum trabalho. A realidade é que só comemos se as pessoas forem generosas e/ou aceitem o nosso trabalho em troca, só dormirmos com tecto se alguém quebrar as suas próprias seguranças e nos aceitasse em sua casa, só tomamos banho ... se alguém nos deixar..

Um dia depois estava a chegar ao local de campo. Durante esse tempo tive a maior e mais radical experiência de humildade e confiança. Foi também uma experiência de humilhação... geralmente usamos a palavra com o contexto da emoção de vergonha mas o seu sentido é literalmente o acto de ser tornado humilde, ou diminuído de posição ou prestígio.

 Embora tenha sido há alguns anos àquela experiência marcou-me profundamente, e nunca mais viria a esquecer-me dela. Esta pequena caminhada de 1 dia foi baseado numa experiência de formação da Companhia de Jesus a peregrinação de pobreza, que coloca os noviços (as pessoas que estão em formação para jesuíta durante 10-15 dias a andar, sem rede de segurança, numa experiência radical de humildade e também numa caminhada espiritual de confiança em Deus e nas pessoas. 

Anos depois comecei a aperceber-me de uma coisa muito curiosa... em muitas culturas com que me tenho cruzado existe algo semelhante, uma experiência de confiança que quebra as seguranças sempre associada a uma procura interior e/ou fé.
- Portugal: Jesuítas [3]
- Tailândia: Todos os budistas durante pelo menos 15 dias a 3 meses passam pela experiência de ser monge. Em tudo o que isso implica! E isso é também uma caminhada e pedir comida. [4]
- Austrália: Walkabout


O espaço de tempo foi pequeno, mas aprendi tanto.. senti necessidade de conversar com quem fez a formação jesuítica e portanto a caminhada de 10-15 dias... o que reforçou muito a minha opinião.

É importante deixarmos a apatia da segurança, e a cultura do eu... até para ser possível sermos.. receptivos...

Receptividade

Finalmente, meu terceiro ponto...

 Hoje estamos aqui e dispusemos-nos a ouvir.

A dar uma oportunidade à pessoa que está aqui neste palco e ouvi-la.

Aqui as condições facilitam isso. Há alguém que nos escolhe e nos apresenta como possíveis pessoas que têm algo que pode ser interessante para ouvir. Vocês estão aqui e ouvem o que tenho a dizer, porque estou aqui em cima deste palco.

Isto pode parecer um pouco radical mas...

Acho que a maioria de vocês já deve estar familiarizado com a história do violinista Joshua Bell, que durante 45 minutos actuou numa estação de metro sendo quase ninguém lhe prestou atenção. Realço que ele encheu grandes salas de espectáculo dos Estados Unidos com preços de 100$ por pessoa, mas ali a tocar de forma grátis... quase ninguém parou... [5]

Quando ouvi a história Joshua não pude deixar de sorrir ao associa-la àquele tempo de caminhada em que descobri também pessoas e histórias que mereciam estar em cima deste palco.. mas que nunca me disponibilizaria a ouvir se não fosse a minha condição de peregrino, e de humilhação.

Nesse momento percebi o que nos torna a todos TEDxers... Estar receptivos!

 Parece pouco... mas quantas pessoas realmente estamos dispostos a ouvir?





Por esta altura devem estar a pensar o que tem isto a ver com o resto.. ou simplesmente "ele enlouqueceu". 

A verdade é que acho que tudo isto tem tudo a ver com o egocentrismo do mérito que temos o risco de viver, e com a teimosia.

Primeiro porque ninguém consegue "caminhar" sozinho....

...segundo porque caminhar, deixar as seguranças como algumas destas pessoas fazem e partir ou é dum louco ou dum teimoso.

Curiosamente loucos e teimosos é o que costumam chamar aos grandes homens dos nossos dias. E são esses que ouvem alguém no meio da multidão...


A minha única conclusão e mote é muito simples... vamos todos tentar deixar de precisar de ter palcos."







[1] Este conceito já existia, segundo muitos historiadores desde Benjamin Franklin, mas o termo só foi tornado popular por James Adams.

[2] [Actualização 02/11/2012] Existe uma TED Talk que vi apenas agora, que fala disto, que nós não somos realmente "self" made. Podem ver aqui.

[3] Embora refira apenas Portugal, em todos os países em que há jesuítas em principio há esta experiência durante a formação dos seus noviços



[4] Tal como nós em outros tempos tínhamos serviço militar obrigatório, e em outros paises Europeus há depois do 12º um ano de serviço à sociedade, na Tailândia faz parte das tradições todos os budistas serem monges.



[5] Ver a notícia original aqui.



Slides 
Ver no slideshare


PS: UPDATE O vídeo ficou hoje (15 de Dezembro de 2012) disponível, e adicionei-o ao post.

PS2: Algumas notícias sobre a TEDxCoimbra 2012: A Cabra | As Beiras

sábado, outubro 20, 2012

TEDxCoimbra 2012

Há alguns anos descobri o conceito TED (ver aqui o que é). Fiquei bastante fascinado com as pessoas e ideias que estas partilhavam. Era uma exposição de experiências e conhecimento que acho que pode abrir-nos muito os horizontes.

Em 2010 descobri que ia haver a primeira TEDx, uma experiência "filha" da original TED na minha cidade natal, Coimbra. Dai a decidir que ia e me inscrever foi um passo, iria ser a minha primeira TEDx, a primeira também da minha cidade, TEDxCoimbra.

Na altura escrevi este post.

Estava longe de sonhar o que ele iria causar.

Voltei em 2011, e aconteceu-me algo que agora que já foi tornada pública a minha presença como orador, e inclusive já se realizou, já posso contar...

Cheguei lá as 9:00 para descobrir que não era só eu que tinha descoberto a TEDxCoimbra, mas a TEDxCoimbra também me tinha descoberto... e ao meu blog. E que tinham um convite/desafio para mim, ser o primeiro orador a saltar da plateia para o palco...

Bom, a minha resposta foi "ahm? Não.. ". A verdade, como já sabem, é que uns meses depois a grande organização do evento representada pela Ana Arromba e Frederico Dinis tinha-me convencido que podia ter algo de interessante a dizer.. ia ser orador.



Enquanto lêem isto, estou agora provavelmente a subir ao palco, algo nervoso, algo apreensivo. No fundo a sentir-me um pequeno anão, não nos ombros, mas entre grandes gigantes que são os meus colegas oradores.




Vamos ver se consigo fazer diferença...

...partilharei aqui o resultado final!

segunda-feira, outubro 15, 2012

Citações


"Posso ter defeitos, viver ansioso e ficar irritado algumas vezes, mas não esqueço de que minha vida é a maior empresa do mundo, e posso evitar que ela vá à falência.

Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise.

Ser feliz é deixar de ser vítima dos problemas e se tornar um autor da própria história. É atravessar desertos fora de si, mas ser capaz de encontrar um oásis no recôndito da sua alma. É agradecer a Deus a cada manhã pelo milagre da vida.

Ser feliz é não ter medo dos próprios sentimentos. É saber falar de si mesmo. É ter coragem para ouvir um 'não'. É ter segurança para receber uma crítica, mesmo que injusta.

Pedras no caminho? Guardo todas, um dia vou construir um castelo..."

Fernando Pessoa


Seria de facto um belo texto. É pena que como tantas outras citações... não seja de Fernando Pessoa.

"..tanto na web como em papel impresso, circulam vários «poemas apócrifos» assinados por Fernando Pessoa; muitas vezes, os seus autores pretendem garantir algum reconhecimento anónimo através da utilização do nome do poeta – são, geralmente, textos de má qualidade e que, infelizmente, se multiplicam todos os dias." - Citação de Provedor Público

E para os mais curiosos, o que se acredita que é a história completa deste texto.

Já agora, apresentação do Nemo Nox.


Citações pela web? Googlo-as todas... um dia vou achar uma verdadeira....


domingo, outubro 14, 2012

Hoje é o dia



Há algum tempo que tinha decido que este blog ia retornar da quase morte, e para isso ia (re)começar por lhe lavar a cara.

Aqui está, lavada, e esperemos que melhor.

Só falta recomeçar a escrever....


[Actualização]
Na remodelação do aspecto reparei que tinha imensos blogs de amigos (ainda bem!) mas que muitos já estavam também "mortos". Para evitar ter tanto "spam vísual" removi os que não eram actualizados há mais tempo, que claro voltarão lá caso tenham novos posts.

Por agora ficam aqui: 

quinta-feira, setembro 20, 2012

Sonho com Portugal



Martin Luther King tinha um sonho. Eu tenho vários.

Sonho num pais onde cessem as promessas com esse nome pomposo de demagógicas, alias que todas as promessas deixem de existir e sejam substituidas por ideais, porque as promessas são temporárias, contextuais e éfemeras, os ideais são eternos.

Sonho com ideais de honra, honestidade e generosidade. Sonho com uma nação onde a palavra de honra vale mais que outra coisa qualquer.

Sonho num pais, não de poder, glória e riqueza, uma especie de pais "endeusado" como já fomos, mas num país onde os ideais me façam ter orgulho do país em que vivo. Que me façam ter orgulho de um filho meu cá nascer. 

Sonho não em manifestação, nem revolução, mas em confiança, unidade e força. 

Sonho num pais que tenha alguém que se levante da multidão e ponha as pessoas a sonharem com ele. Sonho com um Atatürk português. Um novo Afonso Henriques, não da luta, mas do ideal a unir-nos sobre uma única bandeira, sobre um único pais que somos.
Sonho com alguém que não ensaie discursos, mas que os sinta, que acredite no que diz. Sonho que quando decidir algo penoso, que não disfarce, nem ponha panos quentes e diga isto: "será de facto penoso, mas é para um bem maior, porque vocês conhecem o meu ideal". Sonho com uma nação que mereça este líder. 


Sonho com a capacidade, não em sonhos, mas na realidade que temos para fazer isto.

Sonho com Portugal ...

quarta-feira, agosto 15, 2012

A educação



Muito se tem falado recentemente sobre a educação, sobre os custos, sobre as escolas, sobre os custos das escolas, sobre o privado, o público e o público no privado.

Antes de mais, este post é sobre a educação e não é politico-partidário.

Cada vez mais dou importância à educação, no fundo ela acaba por definir em grande parte quem somos. 

Surge então a questão, o que é uma boa educação? 

Esta pergunta é difícil de responder, prende-se com parâmetros que não são sempre iguais. Para uma família/pais um filho "bem educado" foca-se em ter boas notas; outros focam-se mais em ter preocupações de ambientais; outros em conseguir chegar onde quer, mostrando sempre que se é o melhor; outros em ser bom jogador de um desporto; outros dizem apenas ser um bom cidadão/pessoa.

Parece-me que a última poderia ser a base mais consensual, dado que o contexto que me cerca e onde vivo é Portugal.

Partindo da constituição:

"Portugal é uma República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária." - Constituição Portuguesa


Portanto, a olharmos por estre prisma, um bom cidadão, "bem educado", será um livre, justo e solidário. 

No entanto a liberdade, justiça e solidariedade são aqui tão subjectivos que me parece uma falácia ir por este caminho.

Estes parâmetros parece-me que só poderão ser avaliados dum ponto de vista subjectivo, quase pessoal, mas baseado nos parâmetros sociais altamente mutáveis ao longo do tempo. No nosso caso baseados numa sociedade judaico-cristã, tendo cada individuo mais ou menos influências destes princípios, estando já parte deles diluídos num mundo em globalização.



Portanto parece-me importante definir antes de mais o que, pessoalmente, considero "educação". Por educação refiro-me ao "pacote" indivisível entre o que é ensinado e aprendido nas escolas, e da moral/ética subjacente à sociedade e família que é absorvida pelo individuo. 


Esta educação podemos argumentar que é altamente susceptível ao nosso meio sócio-económico e obviamente tem, pelo menos em termos escolares, força o argumento. No casos dos estratos sociais mais favorecidos, poderá a sua condição social ajudar o individuo (explicações p.e.).

No entanto, moralmente, não é por ter mais ou menos dinheiro que a moral/honestidade terá que falhar. Parece-me transversalmente possível. Mas tal como da educação escolar, a moral também tem pontos de fraqueza como consequências sociais, curiosamente, em estratos sociais que não são exactamente iguais...

As tentações de 'má conduta' são maiores em ambos os extremos da escala social: quando há muito pouco dinheiro e o sentimento de injustiça aumenta bem como quando há imenso dinheiro e poder e esse pode ser facilmente usado para os fins errados.


Portanto, como podemos enquanto pais dar uma boa educação transversal? 

Desde sempre deixamos grande parte da moral e ética como elemento secundário nas salas de aula, porque será algo que será passado pela família e poderá e é diferente. 

Não defendo que optemos por achar que a escola deve fazer tudo, e a familia deve ser uma mera observadora do desenvolvimento do individuo, parece-me no entanto que uma abordagem mista seria mais feliz.

Tanto a escola deverá fomentar pelo menos o debate ético e moral para além do ensino cientifico, como os pais devem esforçar-se pela educação nas suas várias componentes. 


Acho que estamos numa época que dizemos que a liberdade é tão importante, que evitamos debater posições diferentes. No entanto, acredito, que é deste debate que surgem as ideias e ideais mais fortes e coerentes, que foram trabalhados e moldados pela reflexão e exposição a outros diferentes.


Mas por agora, infelizmente, acho que vamos continuar a discutir apenas futebol e politica como treinadores de bancada, nos cafés. 

Até quando?

quarta-feira, julho 18, 2012

Os Irmãos Karamazov



Acabei de ler um dos livros mais brilhantes que já li. Se acreditasse em destino diria que estava guardado na estante do meu pai desde 1984, (antes de eu nascer portanto), para eu o ler...ainda na sua edição de um volume só. 

A narrativa trata da história de uma conturbada família em uma cidade na Rússia. O patriarca da família é Fiódor Pavlovitch Karamázov, um palhaço devasso que subiu na vida principalmente devido aos dotes de suas duas mulheres, ambas mortas de forma precoce, e à sua mesquinharia. Com a primeira mulher tem um filho, Dmitri Fiodorovitch Karamázov, que é criado primeiramente pelo criado que mora na isbá ao lado de sua casa e depois por Miússov, parente de sua falecida mãe. Com a segunda mulher tem mais 2 filhos: Ivan e Aliêksei Fiodorovitch Karamázov, que são criados também por um parente da segunda mulher do pai de ambos. Ao passo que Ivan se torna um intelectual, atormentado justamente por sua inteligência, Aliêksei se torna uma pessoa mística e pura, entrando para um mosteiro na cidade. 
De uma querela financeira entre o pai e seu primogénito  também devasso porém honrado, nasce também a disputa por uma mulher, Gruchénka, que levará ambos a descomedidos atos que resultarão na morte de Fiódor Pavlovitch Karamázov.

Após o ler fui pesquisar. Tinha achado o livro genial, mas o fim estranho. Descobri que infelizmente o livro não contém toda a história, mas é apenas o primeiro dos capítulos... Dostoiévski morreu antes de terminar o que já era a sua obra prima. A obra final completa seria sobre a vida de Alieksiéi, coisa que Dostoiévski  declara logo no início do prólogo:

Ao começar a biografia de meu herói, Alieksiéi Fiódorovitch, sinto-me um tanto perplexo. Com efeito, se bem que o chame meu herói, sei que ele não é um grande homem; prevejo também perguntas deste género  "Em que é notável Alieksiéi Fiódorovitch, para que tenha sido escolhido como seu herói? Que fez ele? Quem o conhece e por quê? Tenho eu, leitor, alguma razão para consagrar meu tempo a estudar-lhe a vida?"

E que prólogo! Passadas um par de páginas já me tinha conquistado com a sua provocação indicando que os críticos poderiam apenas ler o prólogo e ir criticar, enquanto que quem realmente gostasse da obra prosseguiria.

Tenho pena de não ter memória fotográfica, para ter memorizado diálogos inteiros no convento, que atinge um auge de reflexão brilhante.


Descobri que existe também a versão em filme, que ainda não vi, mas que receio que não conseguir captar em apenas 2 horas a força completa das palavras e reflexões do livro que me acompanhou alguns meses. Descobri que está disponível do YouTube portanto aqui fica:



"O mistério da existência humana não consiste em viver por viver, mas ter um sentido de vida." 

"Não se pode acreditar à força. Além disso, nas questões de fé, as provas não ajudam, especialmente as materiais. Tomé acreditou, não porque viu Cristo ressuscitou, mas porque já antes desejava acreditar."

Fiódor Dostoiévski em "Os irmãos Karamazov"


A minha vontade de ler os "clássicos" já estava a crescer.. aumentou radicalmente depois de ler este!

domingo, maio 06, 2012

Formação em Liderança

Fui convidado para dar uma formação em liderança aos directores de campos de férias de Campinácios.


Obrigou-me a uma boa reflexão e a pegar novamente no livro de liderança inaciana que tinha falado aqui.

Obrigado pelo convite!