quarta-feira, outubro 31, 2012

As tribos de hoje em dia


Como quase sempre em mim, hoje mais dois pensamentos afastados convergiram num só, agora claro e quase tão evidente que faz duvidar porque não nasceram já assim.

O primeira já tem algum tempo, e nasceu em mim na mesma altura que falei aqui sobre futebol. Inicialmente reflecti bastante sobre as claques:

- Porque é que existem
- Porque é que tantas pessoas se ligam a elas
- Porque é que tem tantas vezes um comportamento tão primordial que ultrapassa o racional


O segundo, surgiu-me quando andava a pesquisar para escrever o draft do que iria dizer na TEDx. Li várias vezes o conceito da Pirâmide de Maslow, e se na altura o ponto que mais me interessava era a segurança.. a verdade é que fiquei com o ponto seguinte bastante entranhado, as necessidades sociais.



Como acontece quase sempre, sem eu notar estes dois pensamentos fundiram-se e fizeram-me perceber que o ser humano actual precisa, provavelmente, mais do que nunca de ser amado, querido por outros, aceite e necessário.

O ser humano é um ser social, e isso, arrisco-me a dizer, está bem entranhado no subconsciente. O sentimento de pertença é um sentimento reconfortante. Há milhares de anos o ser humano pertencia a tribos, cada uma das quais tinha rituais próprios. Cada tribo eventualmente poderia entrar em guerra com outras, e os seus membros eram chamados a lutarem por ela. 

Mais tarde estas tribos cresceram, passaram a ser paises, nações, que sobre uma única bandeira proclamavam unidade, no caso de Portugal unidade contra os "mouros" e "Castela". Era um sentimento visceral, ser Português era uma afirmação de pertença e de guerra contra os "inimigos".

Com o passado dos séculos, grande parte dos paises estabilizou as suas fronteiras e cessou as suas guerras. Passamos a ser membros de algo que não temos de defender, pelo menos contra inimigos que pertençam a outros. Deixamos de sentir que somos necessários para este grupo. 

Em consequência, deixando de nos sentirmos necessários, o nosso sentimento de pertença foi-se reduzindo. 

Fomos "andando para trás", do nosso país à nossa cidade, ao nosso bairro, ao nosso partido, ao nosso clube, à nossa faculdade...

E portanto a estranheza com que encarava uma claque de futebol e o que alguns dos individuos faziam por elas deixou de ser tão estranha. 


A submissão à praxe, pela forte sentimento de pertença posterior, deixou também de ser algo turvo.



Hoje temos tribos diferentes, mais pequenas, mais focadas, onde concentramos a nossa necessidade de pertença.


Enquanto não tivermos uma necessidade mais forte, que nos una novamente sobre uma única tribo, onde sintamos que somos úteis, continuaremos assim. 


Será que um dia, aqui em Portugal será capaz um líder com o carisma de um Braveheart (não da luta!), mas da sociedade...

...e unir-nos novamente sobre uma única tribo onde todos nos sintamos úteis?

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