quarta-feira, outubro 09, 2013

Desde que há documentos escritos e provavelmente já desde o fim do Neolítico, existem no mundo três categorias de pessoas: a Alta, a Média e a Baixa. Estes grupos têm-se subdividido das mais diversas formas, formam-lhe atribuídos variados nomes, e a sua proporção numérica, bem como as atitudes reciprocas, variaram de época para época; a estrutura fundamental da sociedade, porém, nunca se modificou. Mesmo depois das maiores convulsões, das mudanças aparentemente mais irreversíveis, acabou sempre por restabelecer-se idêntico modelo, tal como um giroscópio volta sempre ao ponto de equilíbrio por muito bruscamente que o desloquem nesta ou naquela direcção.
Os objectivos destes três grupos são absolutamente inconciliáveis. O objectivo da classe Alta consiste em permanecer onde está; o objectivo da Média, em trocar de posição com a Alta. O objectivo da classe Baixa, quando algum objectivo tem - pois a característica persistente da classe Baixa resume-se a ser de tal modo oprimida pela dureza do trabalho, que só de vez em quando toma consciência daquilo que é exterior à sua vida quotidiana -, consiste em abolir todas as distinções, criando uma sociedade em todos os homens sejam iguais. E assim, ao longo da História, se repete vezes sem conta uma luta, nas suas grandes linhas sempre a mesma. passam-se longos períodos em que a classe Alta se julga firme no poder, surgindo logo um momento em que os seus elementos perdem a confiança uns nos outros, ou a capacidade de governar com eficiência, ou ambas as coisas. São então destronados pela classe Média, que, no seu fingimento de estar a empreender a luta pela liberdade e pela justiça, consegue o apoio da Baixa. Mas mal atinge os seus objectivos, a classe Média volta a empurrar a Baixa para a antiga servidão, e converte-se ela própria em Alta. Ao fim de algum tempo, a nova classe Média se formou, a partir de um dos outros grupos, ou de ambos, e tudo recomeça. Das três categorias, só a Baixa nunca consegue, ainda que temporariamente, atingir os seus objectivos. Seria exagero dizer que ao longo da História não tenha havido certo progresso material. mesmo hoje em dia, no actual período de declínio, o ser humano vive, em média, materialmente melhor do que vivia há alguns séculos. Mas nenhum acréscimo de riqueza, nenhum abrandamento dos costumes, nenhuma reforma ou revolução fizeram recuar um milímetro sequer a desigualdade humana. Do ponto de vista da classe Baixa, as mudanças histórias pouco mais representam que a mudança do nome dos chefes.
Já no final do século XIX, a recorrência deste modelo se tornara evidente para muitos observadores. Surgiram então escolas de pensamento que interpretaram a História como um processo cíclico, procurando demonstrar que a desigualdade era uma das leis inalteráveis da vida humana. Tal doutrina, naturalmente, nunca deixou de ter adeptos, mas o modo como está hoje apresentada representa uma mudança significativa. Antigamente, a necessidade de sociedades hierarquicamente organizadas consignava uma doutrina específica da classe Alta. Quem a pregava, eram, por um lado, os reis e aristocratas e, por outro, grupos parasitários como os sacerdotes e os advogados, adoçado-a regra geral, com promessas de compensação num mundo imaginário além-túmulo. A classe Média, enquanto lutou pelo poder, recorreu sempre a termos como liberdade, justiça, fraternidade. Mais recentemente, porém, o conceito de fraternidade humana começou a ser tomado de assalto por grupos que não se encontravam ainda em posições de chefia, mas esperavam ocupá-las muito em breve. No passado, a classe Média fazia revoluções sob a bandeira da igualdade, a fim de instaurar novas tiranias logo que as antigas caíam. Os grupos médios recentes, em contrapartida, proclamaram antecipadamente a sua tirania. O socialismo, teoria do início do século XIX, e que constituiu o último elo de uma cadeia de pensamento que remonta às revoltas de escravos da Antiguidade, mostrou-se ainda fortemente impregnado do utopismo antigo. Mas em cada uma das tendências do socialismo, que apareceram a partir de 190, esse objectivo de instaurar a liberdade e a igualdade foi sendo descaradamente posto de parte.

Excerto retirado do livro:

Teoria e Prática do Colectivismo Oligárquico por Emmanuel Goldstein - livro imaginário dentro do livro: 

1984 de George Orwell




Como todos os grandes livros... tão actual como quando foi escrito...





domingo, setembro 15, 2013

A dicotomia de Portugal



Portugal ou seja nós Portugueses somos engraçados... tentamos legislar a ética, e ensinar a "componente técnica"... quando poderíamos estar a incutir e ensinar a ética e a legislar a "componente técnica". 

Vemos todos os dias casos e casos de corrupção quase gritante e centenas de indivíduos que perpetuam uma sucesso de crimes nunca sendo considerados culpados em última instância.

Podemos dizer e muitas vezes dizemos que são os nossos tribunais, e os políticos que fazem as leis que são corruptos. Até pode ser. Mas estamos, na minha opinião, a focar-nos no espaço-tempo errado.

Como é que existe um número grande de indivíduos que praticam crimes?


Podemos considerar que é sinal dos tempos ou que sempre foi assim mas que só agora com as notícias nacionais e globais temos mais noção disso. Pode ser que seja verdade, mas mesmo assim acho que estamos a olhar para o espaço-tempo errado. 

Como é que estas pessoas chegaram ali? Essa é a pergunta que considero que tem mais valor. Não me refiro à aprendizagem de como furar os trâmites legais.

Mas realmente como é que formamos um vasto número de indivíduos com poucos valores éticos?

Grande parte das pessoas dirá que também é sinal dos tempos. Temos o que se chama de mais "famílias desestruturadas", em que existem conflitos entre pai e mãe que causam revolta nas crianças e que por uma serie de consequências mais tarde as podem tornar mais propicias à delinquência.

Outros que viveram nessas famílias de certo irão logo protestar contra estes argumentos, indicando que tendo estado em famílias divorciadas, por exemplo, nunca se degeneraram e que vêm muita gente corrupta vinda de "famílias boas".

A verdade é que todas as famílias tem problemas e discussões mas empiricamente é mais provável uma criança ter mais problemas quando vive num meio familiar onde passa por um divorcio ou por onde vive conflitos diários entre os pais ou avós. Existe também o outro espectro em que não existem conflitos, mas simplesmente os pais não tem o tempo ou a vontade para serem pais...

Mas acho que é ingenuidade nossa pensar que se isso se resolvesse tudo estava bem e seriamos todos excelente pessoas com uma alta moral e ética.

Tal como somos as escolas e faculdades são ingénuas a ter disciplinas de ética dadas com os alunos sentados numa sala de aula, a ouvir uma pessoa falar.... até porque, é fácil perceber que vivemos numa sociedade que dobra a ética quando lhe convém. A ética pode-se apregoar... mas para ser aprendida tem que ser vivida.



Para perceber a diferença abismal Portuguesa para outras realidades com uma ética mais forte vamos pegar em alguns exemplos do Japão. Teremos de exemplos que consideraremos muito bons e outros maus ou pelo menos estranhos dados a diferença da cultura. Para efeito de reflexão peguemos num simples exemplo útil neste contexto:
  • Os alunos japoneses limpa e lavam a escola.
Pergunto-me qual seria a reacção de grande parte dos pais se o Ministério da Educação hoje anunciasse que seriam os seus filhos a limpar a escola, rotativamente e que seriam as empregadas de limpeza as suas monitoras nessa tarefa (isto para eliminar o argumento do despedimento).

Escândalo? Duvidas sobre a legalidade? Provavelmente os tão na moda, processos de impugnação da decisão...


Algum tem dúvidas que isto teria dificuldade em ser implementado?

E porquê?
Limpar é um trabalho que não ensina nada!
As pessoas que tem esse trabalho estão ali porque não estudaram! Para quê por as crianças a fazer isso? Exploração infantil!

Preveria uma serie de cartazes e manifestações assim... 


No entanto, na prática, qual seriam as implicações?
Alguns dias por mês, cada um dos alunos, ia primeiro que tudo aprender uma coisa útil e ao mesmo tempo perceber que sujar, deitar papeis para o chão tem implicações... e último e mais importante ia reduzir os preconceitos com aquele trabalho.




Podemos achar que isto é um exemplo pontual. E na prática nem será por nenhuma destas questões que achamos que por crianças a limpar é uma má ideia. É porque são crianças, e as crianças devem ter é mais tempo para brincar.

Muito bem, isto foi apenas um acidente no nosso raciocínio. Somos até um país ético...


Então e quando copiamos num teste... é falta de ética? Quase de certeza que muitos de nós o fizemos, possivelmente os nossos pais também e até brincaram connosco a explicar como copiaram, as suas técnicas.

Assumimos "não faz mal" é só um teste. É só porque desta vez estamos menos seguros da matéria, mesmo tendo estudado, portando, merecendo passar....

Então e se esse teste for um teste na faculdade?

E se esse teste for o teste de um médico que no futuro o vai atender? Ainda "não faz mal" ele copiar?

E se for um teste do professor que vai ensinar o seu filho, também não faz mal?


Estou a ser radical? Provavelmente alguém que tenha copiado muito e de facto não saiba não vai conseguir entrar na faculdade de acabar o curso... ou será que vai?

Acham que esta dúvida não existe?


Se não existe porque estão a aumentar o número de profissões onde existe mais provas após terminar o curso?

  1. Avaliação dos professores antes de ser colocados.
  2. Avaliação dos advogados antes de entrarem na ordem
  3. ...

Podemos dizer que são mil outras coisas a criaram estes exames, até decisões políticas... mas a minha visão é que, como disse no inicio, estamos a legislar ética, em vez de a ensinar.

Não há confiança nos conhecimentos das pessoas que acabaram de ser formadas por instituições de ensino superior. Seja pelo que elas fizeram, seja pelas práticas da instituição em si... algo vai mal...

E a ética resolvia tudo? Provavelmente não, mas se todos temos mais ética no estudo e no trabalho e levamos as coisas à seria, com rigor, então os motivos para a desconfiança acima começam a deixar de ter motivo...


Como mudar? 

Essa é a parte simples... e complicada.

Hoje em dia as escolas em geral tem como objectivo educar as crianças funcionalmente. Por funcionalmente quero dizer dar-lhe competências técnicas para o seu próximo grau escolar ou para a sua profissão futura.

No entanto são poucas as que arriscam dizer que também são responsáveis pela educação pessoal para junto com os pais passar a ensinar ética e moral. Geralmente só o fazem as escolas com educação de base religiosa, mas acho que isso é um profundo erro que cometemos.

Todas as pessoas que tem contacto no dia-à-dia com crianças, jovens, adolescentes e mesmo adultos são educadoras: Primeiro e sobretudo pela maneira como estão e se comportam, que será imitada, mas em segundo caso também pela teoria.

Quando é que ouviram que um aluno que copiou foi chamado pela professora que lhe explicou que o problema eram as consequências de ele não saber para o seu futuro?

Quando é que ela achou que podia haver ser também um erro dela a não conseguir transmitir a matéria ou o beneficio de a aprender?

E sobretudo, quando é que os pais em geral acharam mais importante o filho aprender em vez de ter notas altas?

Geralmente a opção dos professores é anular o teste simplesmente e mandar o aluno para a rua.. ou mais recentemente ignorar, para não ter que agir. Caso se alerte os pais recentemente as reacções não são no sentido de repreender o filho.. mas de repreender a escola/professor... o importante é ter notas altas, não aprender.

Por outro lado os professores diria que em resposta começam a seguir a filosofia de...
Educar é trabalho dos pais... eles é que o têm que educar, nos estamos cá para ensinar.
Hum?! O quê?!

Como a priberam gentilmente partilha no seu site da internet:

ensinar
(latim insignio, -ire, pôr uma marca, distinguir) 
v. tr.
1. Instruir, dar lições a.
...

6. Educar.


Este país, e se achamos que a globalização veio para ficar, este mundo, é uma equipa.


Os pais tem o seu papel preponderante, mas todos temos o dever de lutar por um país melhor. Uns nas escolas, onde tudo começa... outros em tudo o resto!


O problema de Portugal nunca foi e creio que nunca será de valor implícito das pessoas... foi sempre da má utilização dele por algumas, pelo qual todas as outras pagam.

Mudar um adulto é muito difícil. Somos muito teimosos e já temos a mania que temos a certeza que sabemos o que é bom. Mudar a maneira como educamos impactando as próximas gerações já está perfeitamente na nossa mão.


Entretanto..

Pagamos sobretudo pela nossa indiferença e coaduno com a chamada "micro, pequena e média" corrupção de onde um dia florescerá a grande.

domingo, agosto 18, 2013

Bufo



bufo
(latim bubo, -onis, mocho, coruja)
s. m.
...
4. Pessoa que denuncia outra. (DELATOR)
...



Temos uma forte componente negativa associada a esta palavra.


Desde pequenos provavelmente aprendemos (ou ensinaram-nos) a não "bufar" os nossos irmãos quando eles fazem asneiras ou  colegas do lado quando eles copiam...

Desde pequenos aprendemos a distinguir entre o certo e o errado moralmente, mas aprendemos também que é tolerável alguém fazer o errado, desde que seja alguém que nos seja próximo. Ou pelo menos temos mais tolerância com essa pessoa.

Em adultos é também muito fácil notar isso: quando criticamos sempre as pessoas que andam em excesso de velocidade porque podem causar acidentes mais graves, mas temos aquele amigo próximo que o faz e a quem já não dizemos nada.

Acabamos por nos conformar ao que achamos errado relativamente às pessoas próximas para evitar o conflito frequente, ao mesmo tempo que assumimos com convicção essas ideias do que é certo junto das pessoas menos próximas.

Passamos a ter critérios morais selectivos consoante a pessoa...



Por outro lado, quando somos adultos é-nos dito também para não intervir quando vimos na rua um individuo a roubar algo porque pode ter uma arma, ou porque haver um grupo associado a ele... porque é mais seguro.

Passamos a não denunciar um delito, porque temos medo que o delatado "se vingue".

Passamos a viver com a segurança em primeiro lugar...



Em muitos casos passamos até a evitar dar as nossas opiniões em temas muito polémicos...porque são polémicos e provavelmente vão haver pessoas que não concordam... e não nos interessa o conflito.



Estas várias tendências sociais juntos fazem com que sejamos mais apáticos em relação ao que se passa à nossa volta, ou pelo menos aparentemente: Só nos afecta se for connosco ou com a pessoa exactamente ao nosso lado.

Até temos convicções, mas só servem para algumas situações.
Até temos agimos, mas só se for algo directamente connosco.
Até temos uma opinião.. se não entrarmos em conflito com ninguém.


Até vamos mudar o mundo... se não chatearmos ninguém com isso... like that's gonna happen... 



Ps: Uns países ao lado, na Suíça, o nosso vizinho delata-nos se não pusermos o lixo no contentor. Quem está errado?

sábado, agosto 10, 2013

Sentido da vida


Esta é provavelmente a pergunta mais frequente ao longo da história da humanidade.

A nossa vida terá algum sentido? Não estou a falar do sentido que lhe podemos dar, mas de um sentido maior. A diferença? Colossal.

Geralmente esta pergunta bate sempre com a nossa criação, ou seja, se tivemos um criador, que nos criou e por isso tinha algum sentido para nós, ou se fomos um acidente evolucionário que num universo quase infinito era uma inevitabilidade. 

Uma das coisas curiosas é que geralmente um "sentido maior que nós" para a nossa vida é algo que muitas vezes quem não cresceu num contexto religioso não sente falta. Na minha opinião isto acontece porque nunca sentiu a sensação reconfortante de poder ser em parte infinito.

A nossa sociedade actual, e arriscaria dizer que desde à séculos senão mais tende a destacar a fama, seja por glória, feitos ou outro qualquer motivo. 

Como diz muito claramente a música "Hall of Fame" dos The Script:
You could be the hero

You could get the gold
Breaking all the records they thought never could be broke 
Do it for your people

Do it for your pride
Never gonna know if you never even try 
Do it for your country

Do it for your name
Cause there's gonna be a day
Standing in the hall of fame

And the world's gonna know your name
Cause you burn with the brightest flame
And the world's gonna know your name
And you'll be on the walls of the hall of fame
You could go the distance
You could run the mile
You could walk straight through hell with a smile 

Ansiamos fazer algo notável que nos deixe para a história e que marque a nossa vida com sentido.


Porque todos ansiamos isto? 



Alguns talvez digam por dinheiro, mas acho que há um motivo mais fundo, e esse motivo é a imortalidade. É a nossa noção de que somos finitos, limitados.. e que quando morrermos pode ter acabado tudo.

Acho a admissão do ateísmo arrojada (quando é consciente e culta!).  É a admissão ipsis verbis que no dia em que morrermos acabou. E por muita fama que tenhamos conseguido, ou tenhamos depois da nossa morte, eventualmente vai-se desvanecer e voltaremos ao nada de onde saímos.

Podemos também considerar que a raça humana é uma praga. Afirmação radical? 
Definição de praga segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura: 
"qualquer espécie, raça ou biótipo de vegetais, animais ou agentes patogénicos  nocivos aos vegetais ou produtos vegetais" 

Se pensarmos em termos mais leigos, por praga pensamos em algo que se reproduza acima das capacidades dos predadores de controlar a população e que ao mesmo tempo gaste os recursos da área onde está ou passa. Familiar?

Considerar o ateísmo, implica também que o que quer que faça na minha vida é no âmbito da humanidade insignificante. Podemos considerar que as mudanças que façamos no mundo podem ter implicações para sempre. Sem Martin Luther King, Jr como seriam os Estados Unidos da América agora?


Argumentos válidos. Mas se somos realmente apenas um acaso do universo, mais tarde ou mais cedo não haveria outro a fazer algo semelhante?

Se considerarmos que sim, a individualidade perde obviamente bastante relevância. 

Por outro lado se considerarmos uma das religiões, nomeadamente a católica (que é a que tenho mais conhecimento) temos o reconforto de considerarmos que após a morte iremos ter outro tipo de vida. A questão de necessitarmos de fama para prolongarmos a vida após a morte desfaz-se. 

Não defendo de todo ser "religioso" só para ser mais fácil. Isso seria uma falsidade. 
Mas acredito que quando se acredita profundamente é mais fácil. 


domingo, junho 30, 2013

Hoje foi dia de mais uma aventura...





... desta vez debaixo de terra!


PS: A toda a gente que queira experimentar espeleologia recomendo a DNAventura, muito simpáticos e cuidadosos.

PS2: Antes de entrarem na gruta verifiquem sempre se não se esqueceram da Marta :-X

sábado, maio 11, 2013

Teorias da Animação - Em busca de locais


Cada ponto azul do mapa acima indica um local onde os Campinácios já fizeram pelo menos um campo.

São imensos pontos, espalhados pelo país. Como fomos parar a tantos sítios?


Simples, somos activos a procurar locais. Dedicamos fins-de-semana simplesmente a procurar novos locais, e as vezes temos sucesso. Recentemente fazemos isso com frequência, porque após fazermos campo num local e ele ficar limpo, sem silvas, sem mato, todo arranjado ou as pessoas da zona passam a utiliza-lo e ele deixa de ser viável para nós ou com o avançar da "civilização" cada vez mais locais com a natureza ainda "virgem" são destruídos... 

E como se descobre um novo local?

Primeiro que tudo é preciso ter gosto. Procurar locais não é uma ciência exacta, e facilmente será frustrante se não se gostar de andar pelo país a conhecer sítios remotos (e alguns incríveis) no meio do mato. 

Onde? 
A preparação é imprescindível, como o rio é essencial para nós, a primeira coisa a procurar num mapa é por rios, e tendo por exemplo o caudal de algum sitio onde se fez, poderá pelo mapa se perceber se é um rio demasiado grande ou não para o que desejamos. 
As cartas militares, para quem as sabe ler, oferecem mais alguma informação bastante importante que é a inclinação nas margens do rio. Um rio que só tenha escarpas à volta não tem grande interesse. Uma zona que também já está saturada de locais também será mais complicada de obter um novo.

Portanto com toda esta informação, e com alguma aleatoriedade, optamos por um rio/zona... 

O que levar?
Dá sempre jeito levar uma carta militar da zona e um GPS.

Outra coisa mais opcional é um fato de banho e sapatos de água.. sempre podemos experimentar a zona de banhos :-D

Como?
A primeira coisa que fazemos ao rumar para essa zona é tentar ir para uma aldeia e visitar o "café central" ou os bombeiros. Lá apresentamo-nos e explicamos o que andamos à procura, e perguntamos se conhecem algum local com as características que precisamos: privado, com rio, com uma zona plana grande para 60 pessoas e tendas e outra zona com sombra para estarmos durante a parte quente do dia. Para além disso deve ter acesso viável até lá de carrinha. Pode ter mato, silvas, ou árvores a mais que nós limpamos, e até pode ser o nosso "pagamento" ao dono.

Geralmente as pessoas nunca percebem bem o que queremos, e levam-nos a sítios que não valem a pena. Mas 1 em 10 as vezes é bom. E mais, ao falarmos com elas já obtemos informações também da zona, sobre a direcção a tomar, e ficamos com contactos caso descubramos um local e depois precisemos de saber  o dono. 


A partir dai é andar e andar.. acompanhar de carro o rio por uma das margens, e sempre que houve uma entrada para próximo dele, entrar de carro, e depois se for necessário a pé até chegar ao rio e ver se é viável.

90% dos sítios que vemos não servem, e geralmente não é por muito.. ou é perfeito mas fica ao lado de uma praia fluvial, ou é um terreno público e portanto não poderemos usa-lo porque não podemos garantir que pessoas estranhas não vão para lá, ou não tem acesso de carrinha até perto...

Gerir expectativas
Com o passar do dia começa a haver alguma frustração, e começamos a ter um olhar menos exigente.. a carrinha não vai lá, mas o local é mesmo bom ou o rio é muito baixo mas também não é preciso ser muito mais alto... Isto é normal, mas também com a experiência nestas viagens passamos a saber gerir isto e a saber que simplesmente poderemos não encontrar um local gastemos 1 dia, ou 2 ou 3 à procura exactamente porque isto não é uma ciência exacta.

Encontramos um local... e agora?
Agora é preciso descobrir quem é o dono.. a maneira mais fácil é ir às pessoas que vivem perto perguntar de quem é o local. Caso elas não saibam vamos ter que perguntar na Junta de Freguesia ou Câmara. Podem explicar através de referência onde é o local, mas as coordenadas dele também podem ajudar bastante ou mostrarem no mapa.
O que pode acontecer, menos frequentemente, mas pode é não se encontrar o dono do local. E novamente há alguma frustração do "local perfeito" que não achamos o dono. Quase tão frustrante é quando temos um local, sabemos qual é dono e ele não aceita que sejam lá feitos campos. Não desanimar é o mote.

Conseguimos local e o dono concorda!
Parabéns. Isso é mesmo raro, e provavelmente implicou não desanimares durante algum tempo até o achares. É agora altura (depois de tratares das licenças na Câmara, GNR e Delegado de Saúde), de desfrutares.

Encontramo-nos por esse Portugal!

domingo, maio 05, 2013

Teorias da Animação - O Animador de Equipa (AE)


O AE ou Animador de Equipa é na minha opinião e de longe, o elemento mais importante de um campo de férias. 

Pode parecer uma afirmação só paternalista... mas o facto é que campos com má direcção e grandes animadores de equipa, pela minha experiência, podem ainda correr bem (dentro do possível)... mas o contrário já não vi acontecer. 

Quase tudo o que se aplica à gestão do director da sua equipa de animação, aplica-se também à gestão do animador da sua equipa. Ele é o verdadeiro motor do campo!

O animador de equipa é simplesmente o exemplo mais forte, e o educador mais presente. Aquele que acompanha e eles imitam em tudo. É ao mesmo tempo o maior motivador, e a pessoa que está mais perto dos participantes e os conhece aos seus problemas, partilhas, dilemas e vontades. É aquele que os pode educar, é o verdadeiro irmão mais velho. No seu dia-à-dia é um pescador de talentos em que tal como um bom director potencia os talentos de cada animador, ele potenciará os talentos de cada participante - Função

O manual de funções tem a descrição que considero mais prática do funcionamento de um AE: 
"Um animador, tal como o nome indica, deve funcionar como o que anima, o que estimula, o que faz agir e deve ao mesmo tempo ser educador. Ora se a falta de ideias é por mera preguiça dos participantes, o animador deve espicaça-los, sem no entanto dar ideias. Se é por discórdia total do grupo, o animador  deve procurar, em último caso, o meio-termo da questão. Quando é por falta de interesse no tema deves procurar um tema parecido ou em alternativa centrar a discussão no motivo da falta de interesse. Quando é por afastamento do tema central deve-se reconduzir a discussão, a não ser que esta esteja a ser mais interessantes. Tudo isto requer muita intuição do animador, mas de qualquer modo deve-se deixar sempre seguir o rumo de toda a equipa e nunca de um ou outro elemento. 
Não é necessário ser o senhor perfeito, nem a pessoa que sabe fazer tudo, chegam alguns talentos e riqueza humana para dar. Não é uma pessoa que espera que o animem, mas sim uma espécie de fermento, na experiência e dinâmica de um grupo." - Funcionamento prático

Devem (como todos os animadores) ter sempre em mente que estamos no acampamento pelos participantes, não pelos que achamos piada, pelos que são engraçados, mas sim por todos. Parecendo algo óbvio ter em mente isto é extremamente vital, para que nunca ponhamos de parte algum miúdo porque o achamos mais chato, pior ainda nunca devemos ter aqueles comentários mauzinhos, sobre um miúdo, junto aos outros animadores ou obviamente aos participantes, que tem como objectivo serem engraçados, mas que acabam por fazer com que alguém fique à parte ou acabe por saber e ficar magoado. Estamos num acampamento para educar e acolher!
Devem (também como todos os animadores) ter imenso cuidado com as preferências pessoais, um animador nunca deve demonstrar ou passar a imagem que gosta mais de uns participantes do que de outros… por vezes faz-se isso sem ter noção, falar sempre com as mesmas pessoas, sentar-se sempre com as mesmas pessoas, etc… há que ter muita atenção a isso. - Aceitação de todos


Teorias da Animação - O Animador Livre (AL)

O AL, ou Animador Livre é um dos elementos mais icónicos de um campo de férias. É uma espécie de MacGyver do mato, que resolve tudo e o símbolo do voluntarismo, um voluntário sempre pronto a servir!

As suas funções são simples fazer o que é preciso quando é preciso, seja ir buscar água, ir às compras com a mamã, montar a tenda do material um toldo... 

É uma função inicialmente complicada quando ainda não temos o "olho educado" para perceber o que falta, mas que se aprende com rapidez.

Há vários tipos de atitude num campo dos livres, geralmente condicionados pelos directores e pela sua experiência. Tanto um livre pode ser quase autónomo e o director raramente lhe precisa de indicar o que é preciso fazer (quando já tem muita experiência e sintonia com o director), ou o pode preferir ele ou o director de ir dando e recebendo feedback regular sobre o que é necessário fazer. Isto depende muito do livre e do director/adjunto. - O que fazer

É geralmente um animador que tem menos contacto com os miúdos do que o animador de equipa, e quando não é um dos animadores mais "palhaços" poderá necessitar de momentos para se entrosar com os miúdos. Uma boa metodologia é o esquema de "anjos" da guarda, em que cada animador livre (adjunto, tia...) está atribuído a uma equipa, e vai sempre que possível às suas partilhas, e substitui o animador de equipa caso ele precise de descansar, o que cria vantagens dos 2 lados: por um ele está envolvido com uma equipa e portanto não tem a distância comum dos animadores menos extrovertidos, por outro pode substituir o animador de equipa quando ele descansa ou tem algum problema grave e tem que sair do campo. - Proximidade com os participantes

É um animador que poderá esgotar-se por querer fazer tudo, e não querer falhar. Deve portanto ter atenção à sua gestão de cansaço.  - Gestão de cansaço



Teorias da Animação - O Director-Adjunto


Ser adjunto, é ser braço direito, ser sombra e ser serviço.

Tenho sempre muita relutância em dar sugestões e opiniões sobre um director adjunto, pelo simples motivo que ele é sobretudo o reflexo do director.


Fui apenas 2 vezes adjunto, e nessas duas tive posturas e funções bastante diferentes consoante o que o director me pedia. Foi de longe a função que mais tive dificuldade em exercer, e a única em que entrei em conflito com um director (todos temos os nosso momentos menos bons). 

Embora seja complicado definir um adjunto, há coisas bastante comuns. A primeira e mais clara é que é o braço direito (ou esquerdo do director, consoante as funções que a mamã ocupar). Mas geralmente é o direito. É aquele a quem o director confia gerir as coisas onde ele não está.

Geralmente o adjunto é visto como o líder dos animadores livres, essa classificação não é muito clara para mim. O adjunto tanto pode ser uma pessoa ausente do campo, (porque está sempre a sair para fazer as tarefas a realizar fora do campo caso existam, e por isso a sua coordenação dentro do campo é pequena), como ser um dos animadores que sai pouco ou nada do campo (já tive um adjunto sem carta de condução que portanto saiu 0 vezes do campo).
Há muitas vezes que o adjunto, que o é pela primeira vez se sente perdido no campo. Não é livre, mas também não é equipa, nem director e portanto não sabe bem o que fazer. Ora em funções práticas, o adjunto poderá acompanhar os livres sempre que não tenha funções especificas que o director lhe tenha atribuido. E que funções podem ser essas: Para mim o adjunto é sobretudo o "fail-safe" do director. É aquele com quem ele partilha as suas maiores limitações e o ajuda a supera-las. Enquanto director o meu maior problema era os horários. Eu tinha de facto problemas em cumprir e mantém horários pelo que pedi sempre aos meus adjuntos (a partir do momento que percebi que era um problema) para se manterem atentos e me alertarem quando eu pudesse falhar. Portanto enquanto adjunto sempre senti que estava ali para fazer o que quer que o director me pedisse, aprendi também a partilhar com ele as minhas próprias limitações para que não me fosse pedido algo que não me sentia capaz. - Função do adjunto

Deve ajudar o director a estar menos exposto e "gastar menos" a sua autoridade, ou seja, não pode nem deve sempre ser o director a dar um "sermão". Muitas vezes serão os animadores equipa ou eventualmente os livres, mas quando é necessária mais autoridade o adjunto poderá ser essa figura de autoridade, fazendo com que o director só apareça em casos extremos e pontuais sendo a sua palavra muito mais forte assim - Gestão de autoridade

O adjunto é importantíssimo na consolidação do director, é aquele que mesmo que não concorde não pode nem deve à frente dos restantes animadores dize-lo. Estará sempre ao lado do director e quando tiver alguma chamada de atenção a fazer-lhe será sempre em privado. A sua declarada e evidente "lealdade" ao director ajudará a que a restante equipa também o respeite mais. Em última instância ele deve sempre lembrar-se que é o director que de facto manda (embora deva sempre decidir após consulta à direcção). - Consolidação do director

Encaram também muitas vezes o adjunto como um nítido futuro director, isto é algo que eu tenho algum pudor em fazer, simplesmente porque um adjunto pode ser um excelente adjunto e não ser bom director, ou não querer ser director. Um exemplo simples que vejo dum desses casos, o Jacinto que é um grande adjunto e nunca quis ser director. E porque refiro isto? Por uma questão de gestão de expectativas: enquanto adjunto devemos não ser adjuntos para sermos futuros directores, mas ser adjuntos para ser adjuntos. - Expectativas futuras


Teorias da Animação - O Director

Tal como um treinador pode ser um mau jogador de futebol, um director pode também não saber cantar, tocar viola…mas se conseguir pôr as pessoas que o sabem a fazê-lo, está a ser um bom director. O director é um "potenciador" de talentos.



Ser líder

Viver num campo é viver em ditadura. É uma ditadura controlada, porque o líder não se auto-proclama, mas é escolhido, mas é uma ditadura. Isto deve estar presente em toda a direcção, porque como brincávamos na Direcção Nacional, "quem manda aqui somos nós".

Quando fui a primeira vez escolhido por um director para ser seu adjunto, o "second-in-command", eu vinha duma postura de "palhaço". Geralmente não me viam como o tipo responsável, ou o líder, mas como o tipo que fazia as pessoas rir. Eu próprio tinha algumas dúvidas de como seria eu como líder. Não era o líder natural, aquele que, onde está tenta mandar. Era um líder esforçado por o ser apenas.
Muitos passam por esta iniciação dificil, de terem sido gente discreta, ou gente que nunca está à frente, para passarem a dar a cara. É um momento de dúvida, duro para quem passa por ele, pelas incertezas da sua própria capacidade, mas na minha opinião, uma fonte de muito proveito. Geralmente os líderes, que não são desde cedo considerados como tal, tendem a ser líderes que ouvem mais as pessoas, que se põem mais do outro lado para perceber os argumentos e que são menos agressivos na maneira como divulgam a decisão (porque as vezes o difícil não é decidir, mas fazer com que a equipa concorde com a decisão) esse é que é um marco da liderança.

Para todos os tipos de líderes, o que tenho aprendido é que cada pessoa é uma pessoa: umas gostam de dar a sua opinião e que as oiçamos; outras gostam que lhes digam o que é para fazer para ser mais simples; mas todas gostam de ouvir o porquê de uma decisão e todas gostam de se sentir valorizadas.
Um bom líder é uma especie de irmão mais velho, na verdadeira ascensão da palavra. No sentido que está preocupado com cada pessoa como um amigo, e respeita cada pessoa, mas antes demais conhece cada um o suficiente para saber os limites de cada um, o que pode e não pode pedir a cada um.  - Ser líder

Para saber isto há alguns truques: o primeiro é realmente criar uma relação de proximidade com cada membro da equipa, até porque isso os tornará amigos e criará de facto amizades para a vida. Cada uma das pessoas que vão gerir não são simples autómatos que vos têm de obedecer! Caso consigam essa ligação com cada uma das pessoas vão ver que isso terá, como consequência, torna-los membros leais da equipa. 
A outra coisa para o conseguir é um jogo no fim-de-semana de preparação, de perguntas e respostas tiradas de um saco como "O que não toleras num campo de férias?", "Qual é a coisa que mais gostas num campo de férias?", "Se estiveres cansado como se manifesta esse cansaço?"... - Ser líder é ser irmão


Preparação

Notei em cada líder que havia uma característica que já existia nele mas que é realçada pela liderança. Nuns pode ser uma carisma natural, noutros a piada... em mim foi a organização. 

A primeira vez que fui director,  (no ano seguinte a ter sido adjunto também pela primeira vez), foi em condições algo conturbadas. Não era de todo um líder unânime (fora da equipa do meu campo), havia até algum clima de atrito entre o meu campo e outro. 

Isto conjugou-se com a minha dúvida se estaria à altura, e com a falta de preparação que tinha vivido em campos anteriores e criou-me uma vontade, (também por receio de falhar), de preparar tudo ao pormenor, para não existir a mais ínfima margem de erro, do que estava dentro do meu controlo.

Estas condições fortuitas geraram o que eu viria a considerar a minha maior vantagem como líder... (falarei mais à frente)

Ao chegar a cada reunião de preparação os animadores recebiam o manual de funções, resumido tendo apenas a sua parte correspondente e tinham um momento de quebrar gelo, onde nos conhecíamos e actividades para nos divertimos (e criávamos equipa). Usávamos para nos conhecermos perguntas como "O que gostei nos campos que animei? O que não gostei? O que têm que ter cuidado em mim no campo? O que consigo trazer de melhor? O que me podem oferecer/fazer quando tiver num dia mais dificil para ajudar? O que é um bom campo para mim?"- Conhecer e criar ligações

No dia seguinte começávamos de manha cedo com a elaboração do Imaginarium. Como tudo na preparação de campo, todas as decisões são do grupo. E porque? Toda a gente participar na decisão e senti-la como sua fará com que sintam o campo como deles e não como uma coisa imposta. Por consequência irão esforçar-se mais por ele.
Em geral, a maioria resolverá por si mesma as indecisões. Mas a direcção poderá conduzir essa maioria à decisão que considera mais correcta pelas intervenções (geralmente no final das intervenções dos restantes) com uma especie de resumo - vantagens e desvantagens de cada opção - e qual considera então que foi a opção que sobressaiu. Geralmente após esta intervenção de um ou vários membros da direcção nem será preciso dizer "é assim" porque se os argumentos forem bons, a maioria irá aceita-los e orientar-se nesse sentido - Orientar o grupo

Existem momentos onde de facto isto não funciona.

Vivi um desses momentos complicados em 2010 na preparação do campo Walkabout.
Estava em cima da mesa uma caminhada de 2 dias, onde os participantes (Lambretas) teriam que arranjar sitio para dormir.
Começamos pelo básico, listamos as coisas positivas e as coisas negativas, e havia imenso a pender para cada lado. Tanto pela positiva já se tinha feito isto em Formação, como era bom quebrar as desconfianças e pedir tanto comida, água como abrigo a desconhecidos... como pela negativa alguns deles seriam menores de  idade e podiam dormir em algum sítio onde a pessoa lhes pudesse causar algum mal.

A equipa ficou dividida a meio, nem a direcção escapou com metade a apoiar o sim e a outra metade o não.
Percebemos enquanto direcção que era vital resolver isto, duma forma definitiva e não conflituosa nem imposta.. porque os ânimos já estavam a ficar mais intensos.. então sugeri ao director (eu era adjunto) para fazermos algo que tinha ouvido falar numa formação em brainstorms.. algo que não fazia a mínima ideia de qual ia ser o resultado: sugeri que cada um de nós defendesse a opinião contrária.
Ao inicio houve alguma resistência e embora houvesse bastante incredibilidade que aquilo ia funcionar... tentar não custa.
Após uma pausa cada um defendeu com unhas e dentes a opinião contrária ao que acreditávamos  Nesse exercício fomos obrigados a ver o outro lado. Quando terminamos, fizemos uma ronda a dizer o "sim" ou "não" finais... e aqui veio a parte incrível: A ronda estava a terminar com toda a gente a dizer "sim" , até que aparece UM único NÃO. Imediatamente a equipa decide NÃO! Ou todos acreditávamos e fazíamos  ou ninguém fazia. Eramos equipa!
Foi uma dos momentos mais fortes e inacreditáveis que já vivi num campo. A verdade é que nenhum de nós sabia se ia resultar.. mas experimentamos. - Arriscar

Considero o Imaginarium a base do plano de campo e aqui um aparte: nem toda a gente considera ter imaginarium como essencial/base, eu considero. O motivo é simples, no primeiro campo de que fiz, Graal II, onde tivemos um imaginarium com roupas de época, uma espada (verdadeira!!!) mandada fazer de propósito e todo um outro conjunto de coisas, vi o quanto isso me ajudou a ficar fascinado pela história e mergulhar mais profundamente no campo. Criou uma espécie de misticismo, com o fim do campo a ser o rei Artur a ordenar-nos cavaleiros, comigo ajoelhado e uma espada real a tocar nos meus dois ombros... espectacular!
Não tenho muito mais argumentos sem ser este aumento da profundidade do mergulho na vivência surrealista de um campo (isto é se for vivido com seriedade! Os momentos de imaginarium, para mim, são sérios para causarem o propósito que ambiciono).

Imaginarium feito... é hora de definir o plano de campo. Geralmente um quadro branco ou folha de papel de cenário, (que já foi usado no Imaginarium), eram o objecto perfeito, para desenhar uma tabela, já com um esboço do que irá ser o plano final.
Definir blocos onde irão aparecer o "Jogo 1", o BDS, a Missa, a Caminhada... etc. O que irá ser o jogo ou o BDS, será definido por quem ficar responsável por ele. Ao mesmo tempo, definir os animadores responsáveis pelas tarefas, ginástica, equipa de levar a loiça, do pente fino... para fazer com que cada animador não esteja responsável por várias coisas ao mesmo tempo, nem todas no mesmo dia.
O plano não precisa de ficar na sua versão final, a direcção deverá vê lo com mais calma depois da reunião para perceber se tudo está de facto bem e fazer alterações (mínimas geralmente) caso seja necessário - O plano

Como decidir o que é melhor fazer? Eu tenho algumas perguntas fáceis que ajudam:

- Qual é o motivo para fazermos isto? Qual o propósito/finalidade?
- Isto é para divertir os miúdos ou os animadores?

Geralmente estas duas perguntas desarmam as ideias menos lógicas e viáveis. Atenção que um motivo válido tanto pode ser os miúdos perderem o medo do escuro - motivação inicial da noite de terror que perdemos com o passar dos anos, passando a ser uma diversão para os animadores - como eles aprenderem a montar uma tenda, ou a simples diversão deles (um jogo qualquer na água, futebol...).

No próprio decorrer do campo é geralmente fácil distinguir entre uma atitude boa e menos positiva para o campo com estas perguntas base, um exemplo, fazer batota num jogo é bom para o campo?
Pode ser boa, se o jogo for chato e a batota for para os miúdos se divertirem mais, ou para aprenderem que ganhar não é o mais importante... mas nem sempre é isso que acontece, muitas vezes os animadores fazem batota para serem eles a ganhar (só porque sim) ou ignoram as regras do jogo só para se divertirem às custas dos miúdos... a mesma atitude - fazer batota - pode ser claramente positiva, ou claramente negativa e contrária à vertente educativa até!

Estas perguntas servem para tudo. Em relação ao álcool nos campos por exemplo. Podemos perguntar-nos qual é a motivação?
Se for uma noite que tenhamos mais tempo livre reforçar o espírito de equipa (sem de todo nos alcoolizarmos ou perto disso!) enquanto temos uma reunião de convívio com uma chouriça e um copo/gole de favaios, é um motivo que pode ser aceitável. Se for divertimo-nos como animadores, apanharmos uma bebedeira até porque no dia seguinte conseguimos estar "na boa na mesma"... parece-me altamente duvidoso. Uma sugestão que deixo aqui em relação ao álcool é ser a direcção a decidir qual a noite em que há uma garrafa de favaios conjugado com se há tempo depois da avaliação e preparação para isso. Parece-me pouco útil haver álcool  ou chouriça ou o que quer que seja todas as noite, isto deve ser considerado como um mimo, geralmente da mamã nunca um direito ou uma revindicação.

O próprio tabaco deve ser gerido com cuidado, porque pedimos aos participantes para fumar apenas em algumas alturas - apenas quando lhe indicamos que podem - portanto para participantes e animadores deve haver o cuidado e não usar o tabaco como escape para não lavar a loiça, ou montar a tendar ou o que quer que deva ser feito e saciar a necessidade quando há tempo... é uma necessidade não a prioridade.
Um texto do P. Vasco resume isto na perfeição:

"O animador é o que se sente enviado e se sabe instrumento ao serviço de qualquer coisa bem maior do que si próprio. Por isso, no acampamento, não importam tanto as suas capacidades e qualidades (nem os medos ou receios), mas apenas a sua abertura àquilo que lhe será pedido pelo bem de todos. Quem está ao serviço, esquece-se de si mesmo e dá-se (todo) àquilo que faz. O seu trabalho é a sua vida. E ser animador, antes de mais, é um privilégio que é honrado com a entrega e com o serviço incondicionais ao acampamento. Mas vê-se muito pelos acampamentos de hoje, que ser animador é um título que se exibe e que dá direitos (direito a descansar até mais tarde e fazer disso um privilégio diário, direito a sair do acampamento para ir arejar, direito a usar o telemóvel quando apetece, direito a beber cervejas, coca-colas, aguardentes, vodkas,…). Se o animador não está totalmente disponível é um peso que bloqueia em vez de um instrumento que contribui para andar em frente. "  - Como decidir


Aqui entra o que penso que foi a minha maior vantagem enquanto líder: A organização.

Logo que chegavam a casa, ou pouco depois, os animadores tinham no email o Imaginarium na sua versão inicial, o plano, as deadlines que tinham para enviarem as fichas de jogo completas e tudo o que precisavam para o campo continuar a ser preparado logo ali.
Por outro lado, as deadlines que pedia (reparem como pedir é diferente de mandar), eram para o campo estar preparado no inicio de Junho normalmente. E porque? Simples, Junho e Julho as pessoas estão com exames, e não posso pedir-lhe realisticamente para fazerem coisas para os campos quando precisam de estudar. Portanto, ao ter 90% preparado antes, dava descanso mental a quem tinha coisas para preparar e assegurava que o grosso não era preparado em cima do joelho.
Por experiência e preferência pessoal evito sempre a preparação em cima. Não dá tempo para se pensar no que se está a fazer com outros olhos, nem para surgirem ideias que aparecem com o passar do tempo, "e se afinal fizesse o jogo assim?".
Na realidade, continuamos com margem para improvisar se quisermos ou for necessário, mas temos sempre o plano A se não for.

Com o surgimento dos Google Docs, os contactos de cada um, o plano, imaginarium, tarefas, nomes das personagens, fichas, etc, estavam sempre actualizadas num documento online que todos tinham acesso de leitura (e a direcção de escrita).
Esta organização metódica e compulsiva-obsessiva tinha 2 grandes vantagens:

- A primeira as coisas de facto estavam organizadas e preparadas.

- A segunda é que me exigia tempo e esforço, mais do que a qualquer animador antes do campo, e isso dava-me moral para também pedir para eles se dedicarem. Para mim um líder só o é se der o exemplo, e no trabalho pré campo eu levava esta máxima ao extremo. Ao chegarem ao campo cada animador tinha uma pasta, com as fichas de jogo que me enviou, uma cópia do plano de campo para si e outras coisas que pudesse achar útil para aquele animador em particular. Geralmente a resposta a esta organização era a tentativa e execução em excelência por parte deles. - A organização

Todas as coisas definidas atrás criavam uma equipa que respeita a sua direcção e se revê nela.

A isto se acrescentava em cada fase a avaliação, (geralmente dava pontos para as pessoas não divagarem), que é algo para que ainda estamos pouco educados para aceitar verdadeiramente, especialmente para serem avaliados e avaliadores negativamente e perceberem que não estão atacar nem ser atacamos mas é ajuda para serem melhores:
Não é "tu és mau", mas sim "tu podias ser espectacular se fizesses isto assim".

Um privilégio que guardava sempre para a minha direcção e para mim é sermos os últimos a avaliar. Isto permite não influenciar as avaliações dos restantes animadores e ter no fim, novamente, o resumo e avaliação final que no fundo fecha.

No campo pelo cansaço as pessoas tem avaliações mais longas e que divagam mais, portanto apenas 2 animadores (voluntários) avaliavam cada dia, finalizados sempre pela direcção.
Esses 2 voluntários, não podiam avaliar outro dia sem antes todos os animadores terem avaliado pelo menos um, o que fazia com que cada pessoa só escolhesse avaliasse quando tinha algo mesmo para dizer.

No fim do campo a avaliação final, que não é "uma mão a passar pelo pêlo" para dizer que fomos todos muito bons, mas uma reflexão séria do que podíamos ter feito de melhor e o que fizemos realmente bem e estamos de parabéns, é essencial... sem avaliar não melhoramos para o futuro, ser presencialmente ajuda a que possamos conversar em vez de ler um texto "frio" de outras pessoas  - A avaliação


O campo

Durante o campo ajuda imenso ter a noção de como é estar em cada uma das posições do acampamento, para melhor saber gerir cada animador. Isto advém, em grande parte, da experiência de lá ter passado, pelo menos por algumas das funções. Se não se passou por lá é importante, pelo menos, tentar obter feedback de quem passou, para perceber porque é que as vezes os animadores de equipa estão cansados dos miúdos, ou os livres têm vontade de estar mais com eles - Viver cada posição

Outra das coisas que o director deve ter cuidado e na diferenciação dos animadores. Todos devem ser iguais, não se deve incentivar a "classificação" de animadores, seja por terem feito muitos ou poucos campos, por me identificar mais com a maneira de agir de um ou outro, ou pelo exemplo mais clássico... serem de formação. Animador é animador, ponto final. - Evitar o animador não tão animador 

Ser director é cansativo das primeiras vezes. Tem-se a sensação de que está tudo a mexer ao mesmo tempo e temos que absorver tudo. Toda a gente nos pergunta o que fazer e quando fazer. Para além disso temos que estar atentos aos horários (muito importante!!!)... e apitar mesmo quando aquela sorna de conversa está a saber mesmo bem, ou já todos foram tomar banho e nós não tivemos tempo.

Não há soluções mágicas, com o tempo vamos aprendendo a estar mais relaxados, a deixar de nos guiar pelos nossos apetites e passar a gerir pelas necessidades dos campos no fundo a viver o campo de outra forma.

Um director tem duas caras: o director de animadores e o director dos participantes.
Se conseguimos criar equipa (e tivemos alguma sorte também), fomos na preparação bons directores de animadores e eles estão agora numa espécie de piloto automático em que sabem o que fazer e quando fazer, estão em perfeita sintonia connosco e a nossa maneira de gerir e portanto temos mais tempo para ser directores dos participantes e de estar com eles.
Caso os animadores tenham necessidades, seja por insegurança, problemas em casa que se reflectem no campo, ou outra coisa qualquer, temos que cuidar deles! São eles, especialmente os animadores de equipa, que empurram o campo para a frente. Este é um grande trabalho que a mamã pode ter.

Sendo apologista de que devemos tentar gerar consenso, como líderes, há momentos em que isto poderá não ser possível. Em 2009 enquanto director do campo de formação tive uma destas situações limite, em que, infelizmente, durante uma caminhada de pobreza (por equipas), uma das equipas encontrou, ao passar por uma barragem um corpo de uma pessoa falecida.
Ao informarem-nos por telemóvel da situação (a polícia e outros meios já tinham sido chamados), houve uma grande divisão da equipa de animação sobre se a caminhada devia continuar ou se deviam ser recolhidas todas as equipas por carrinha. Era uma situação tremendamente inesperada e complicada porque não conseguiamos saber ao certo o efeito psicológico que teria e não tinha portanto uma resposta simples.
A equipa de animação quando recebeu a notícia estava toda no local de campo, de imediato saíram 2 pessoas (a mamã e um livre) ao encontro dessa equipa.
Percebi que a decisão teria que ser rápida e sem hesitações, portanto, informei todos os animadores que a mamã iria dar-me a sua ponderação sobre qual a melhor opção após estar com os animadores em formação no local, e esta iria ser seguida sem espaço para discussão. Foi um dos raros eventos que tomei uma decisão puramente ditatorial sem nenhum espaço para alguém questionar, mas que enquanto director achei que era essencial tomar - (A decisão foi continuar com a caminhada para não vincar ainda mais o que tinha acontecido e também porque a maioria das equipas não tinha tido aquela experiência).
Há que ter sempre a noção que em última circunstância temos a responsabilidade sobre o campo e portanto sobre cada uma das pessoas envolvidas. Isso poderá criar momentos em que tomaremos decisões complicadas, mas para o bem de todos.- Situações limite

Tendo coisas positivas e outras mais complicadas, realço que ser director é magnifico! Vive-se o campo de uma forma totalmente diferente, sente-se o maravilhoso que é pelos frutos, e nem sempre tanto pela vivência do campo stressada, com imprevistos a toda a hora e preocupação nossa. Mas afinal de contas os frutos são o motivo pelo qual trabalhamos a árvore.

As preocupações e felicidade devem sempre ser partilhadas com a nossa direcção, um director é a cara, mas os braços e pernas dele são o seu adjunto, mamã e capelão. Sem eles a funcionarem a 100%, o director não irá conseguir fazer o campo que todos sonharam...

Ser director para mim reflecte-se no seu auge numa altura, no fim, quando já todos os participantes foram embora e pensamos "CAPUTCHA eu ajudei este campo a acontecer... E QUE CAMPO!", o sentimento não podia ser melhor - O senhor do apito

Ser director é mesmo educar para servir!

Teorias da Animação


Há 10 anos entrei num mundo desconhecido e inesperado para mim. Eram os campos de férias do movimento Campinácios, descendentes do CAMTIL e do MOCAMFE.. uma espécie de escuteiros mas diferentes.

Há 10 anos não tinha grande vontade, apetência ou paciência, achava eu, para tratar e educar de crianças...

Fui fazer campo para ser formado como animador, por motivos totalmente alheios ao campo em si, só pelas pessoas que iam. 

E a partir dai, durante os 10 anos seguintes posso dizer que a minha vida de facto mudou bastante. Durante estes últimos 10 anos fui animador de equipa, livre, adjunto e director e aprendi um conjunto de coisas que me irá acompanhar pela vida. 

Este ano pela primeira vez desde essa altura não vou fazer campo, mas fui convidado para falar um bocadinho quem vai dirigir os 10 dias de centenas de miúdos.

A breve conversa deu-me vontade de deixar aqui uma coisa que vou chamar "Teorias da Animação" e que são apenas opiniões pessoais sobre o que deve ser feito e porquê. Opiniões baseadas em 10 anos de coisas que fiz muito boas e outras menos boas que percebi que não devia fazer.

Não tem nenhuma ambição de servir para nada excepto para daqui a 10 anos eu me lembrar e lê-las com um sorriso de nostalgia. 

sexta-feira, maio 03, 2013

Walkabout @ Colégio das Caldinhas



Tive há alguns meses um convite muito simpático de uma professora do Instituto Nun'Alvres (Colégio das Caldinhas - Santo Tirso) para ir lá reproduzir uma apresentação semelhante à minha TEDxTalk do ano passado para alguns alunos.

Por impossibilidade de agenda, na altura, não me foi possível na altura...

Chegado de Marrocos, como ainda tinha um dia de férias sem compromissos, fui lá com todo o gosto.

O que está acima é o resultado, parecido, mas com adaptações para o público-alvo.

Obrigado pelo convite!