domingo, agosto 18, 2013

Bufo



bufo
(latim bubo, -onis, mocho, coruja)
s. m.
...
4. Pessoa que denuncia outra. (DELATOR)
...



Temos uma forte componente negativa associada a esta palavra.


Desde pequenos provavelmente aprendemos (ou ensinaram-nos) a não "bufar" os nossos irmãos quando eles fazem asneiras ou  colegas do lado quando eles copiam...

Desde pequenos aprendemos a distinguir entre o certo e o errado moralmente, mas aprendemos também que é tolerável alguém fazer o errado, desde que seja alguém que nos seja próximo. Ou pelo menos temos mais tolerância com essa pessoa.

Em adultos é também muito fácil notar isso: quando criticamos sempre as pessoas que andam em excesso de velocidade porque podem causar acidentes mais graves, mas temos aquele amigo próximo que o faz e a quem já não dizemos nada.

Acabamos por nos conformar ao que achamos errado relativamente às pessoas próximas para evitar o conflito frequente, ao mesmo tempo que assumimos com convicção essas ideias do que é certo junto das pessoas menos próximas.

Passamos a ter critérios morais selectivos consoante a pessoa...



Por outro lado, quando somos adultos é-nos dito também para não intervir quando vimos na rua um individuo a roubar algo porque pode ter uma arma, ou porque haver um grupo associado a ele... porque é mais seguro.

Passamos a não denunciar um delito, porque temos medo que o delatado "se vingue".

Passamos a viver com a segurança em primeiro lugar...



Em muitos casos passamos até a evitar dar as nossas opiniões em temas muito polémicos...porque são polémicos e provavelmente vão haver pessoas que não concordam... e não nos interessa o conflito.



Estas várias tendências sociais juntos fazem com que sejamos mais apáticos em relação ao que se passa à nossa volta, ou pelo menos aparentemente: Só nos afecta se for connosco ou com a pessoa exactamente ao nosso lado.

Até temos convicções, mas só servem para algumas situações.
Até temos agimos, mas só se for algo directamente connosco.
Até temos uma opinião.. se não entrarmos em conflito com ninguém.


Até vamos mudar o mundo... se não chatearmos ninguém com isso... like that's gonna happen... 



Ps: Uns países ao lado, na Suíça, o nosso vizinho delata-nos se não pusermos o lixo no contentor. Quem está errado?

sábado, agosto 10, 2013

Sentido da vida


Esta é provavelmente a pergunta mais frequente ao longo da história da humanidade.

A nossa vida terá algum sentido? Não estou a falar do sentido que lhe podemos dar, mas de um sentido maior. A diferença? Colossal.

Geralmente esta pergunta bate sempre com a nossa criação, ou seja, se tivemos um criador, que nos criou e por isso tinha algum sentido para nós, ou se fomos um acidente evolucionário que num universo quase infinito era uma inevitabilidade. 

Uma das coisas curiosas é que geralmente um "sentido maior que nós" para a nossa vida é algo que muitas vezes quem não cresceu num contexto religioso não sente falta. Na minha opinião isto acontece porque nunca sentiu a sensação reconfortante de poder ser em parte infinito.

A nossa sociedade actual, e arriscaria dizer que desde à séculos senão mais tende a destacar a fama, seja por glória, feitos ou outro qualquer motivo. 

Como diz muito claramente a música "Hall of Fame" dos The Script:
You could be the hero

You could get the gold
Breaking all the records they thought never could be broke 
Do it for your people

Do it for your pride
Never gonna know if you never even try 
Do it for your country

Do it for your name
Cause there's gonna be a day
Standing in the hall of fame

And the world's gonna know your name
Cause you burn with the brightest flame
And the world's gonna know your name
And you'll be on the walls of the hall of fame
You could go the distance
You could run the mile
You could walk straight through hell with a smile 

Ansiamos fazer algo notável que nos deixe para a história e que marque a nossa vida com sentido.


Porque todos ansiamos isto? 



Alguns talvez digam por dinheiro, mas acho que há um motivo mais fundo, e esse motivo é a imortalidade. É a nossa noção de que somos finitos, limitados.. e que quando morrermos pode ter acabado tudo.

Acho a admissão do ateísmo arrojada (quando é consciente e culta!).  É a admissão ipsis verbis que no dia em que morrermos acabou. E por muita fama que tenhamos conseguido, ou tenhamos depois da nossa morte, eventualmente vai-se desvanecer e voltaremos ao nada de onde saímos.

Podemos também considerar que a raça humana é uma praga. Afirmação radical? 
Definição de praga segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura: 
"qualquer espécie, raça ou biótipo de vegetais, animais ou agentes patogénicos  nocivos aos vegetais ou produtos vegetais" 

Se pensarmos em termos mais leigos, por praga pensamos em algo que se reproduza acima das capacidades dos predadores de controlar a população e que ao mesmo tempo gaste os recursos da área onde está ou passa. Familiar?

Considerar o ateísmo, implica também que o que quer que faça na minha vida é no âmbito da humanidade insignificante. Podemos considerar que as mudanças que façamos no mundo podem ter implicações para sempre. Sem Martin Luther King, Jr como seriam os Estados Unidos da América agora?


Argumentos válidos. Mas se somos realmente apenas um acaso do universo, mais tarde ou mais cedo não haveria outro a fazer algo semelhante?

Se considerarmos que sim, a individualidade perde obviamente bastante relevância. 

Por outro lado se considerarmos uma das religiões, nomeadamente a católica (que é a que tenho mais conhecimento) temos o reconforto de considerarmos que após a morte iremos ter outro tipo de vida. A questão de necessitarmos de fama para prolongarmos a vida após a morte desfaz-se. 

Não defendo de todo ser "religioso" só para ser mais fácil. Isso seria uma falsidade. 
Mas acredito que quando se acredita profundamente é mais fácil.