quarta-feira, outubro 09, 2013

Desde que há documentos escritos e provavelmente já desde o fim do Neolítico, existem no mundo três categorias de pessoas: a Alta, a Média e a Baixa. Estes grupos têm-se subdividido das mais diversas formas, formam-lhe atribuídos variados nomes, e a sua proporção numérica, bem como as atitudes reciprocas, variaram de época para época; a estrutura fundamental da sociedade, porém, nunca se modificou. Mesmo depois das maiores convulsões, das mudanças aparentemente mais irreversíveis, acabou sempre por restabelecer-se idêntico modelo, tal como um giroscópio volta sempre ao ponto de equilíbrio por muito bruscamente que o desloquem nesta ou naquela direcção.
Os objectivos destes três grupos são absolutamente inconciliáveis. O objectivo da classe Alta consiste em permanecer onde está; o objectivo da Média, em trocar de posição com a Alta. O objectivo da classe Baixa, quando algum objectivo tem - pois a característica persistente da classe Baixa resume-se a ser de tal modo oprimida pela dureza do trabalho, que só de vez em quando toma consciência daquilo que é exterior à sua vida quotidiana -, consiste em abolir todas as distinções, criando uma sociedade em todos os homens sejam iguais. E assim, ao longo da História, se repete vezes sem conta uma luta, nas suas grandes linhas sempre a mesma. passam-se longos períodos em que a classe Alta se julga firme no poder, surgindo logo um momento em que os seus elementos perdem a confiança uns nos outros, ou a capacidade de governar com eficiência, ou ambas as coisas. São então destronados pela classe Média, que, no seu fingimento de estar a empreender a luta pela liberdade e pela justiça, consegue o apoio da Baixa. Mas mal atinge os seus objectivos, a classe Média volta a empurrar a Baixa para a antiga servidão, e converte-se ela própria em Alta. Ao fim de algum tempo, a nova classe Média se formou, a partir de um dos outros grupos, ou de ambos, e tudo recomeça. Das três categorias, só a Baixa nunca consegue, ainda que temporariamente, atingir os seus objectivos. Seria exagero dizer que ao longo da História não tenha havido certo progresso material. mesmo hoje em dia, no actual período de declínio, o ser humano vive, em média, materialmente melhor do que vivia há alguns séculos. Mas nenhum acréscimo de riqueza, nenhum abrandamento dos costumes, nenhuma reforma ou revolução fizeram recuar um milímetro sequer a desigualdade humana. Do ponto de vista da classe Baixa, as mudanças histórias pouco mais representam que a mudança do nome dos chefes.
Já no final do século XIX, a recorrência deste modelo se tornara evidente para muitos observadores. Surgiram então escolas de pensamento que interpretaram a História como um processo cíclico, procurando demonstrar que a desigualdade era uma das leis inalteráveis da vida humana. Tal doutrina, naturalmente, nunca deixou de ter adeptos, mas o modo como está hoje apresentada representa uma mudança significativa. Antigamente, a necessidade de sociedades hierarquicamente organizadas consignava uma doutrina específica da classe Alta. Quem a pregava, eram, por um lado, os reis e aristocratas e, por outro, grupos parasitários como os sacerdotes e os advogados, adoçado-a regra geral, com promessas de compensação num mundo imaginário além-túmulo. A classe Média, enquanto lutou pelo poder, recorreu sempre a termos como liberdade, justiça, fraternidade. Mais recentemente, porém, o conceito de fraternidade humana começou a ser tomado de assalto por grupos que não se encontravam ainda em posições de chefia, mas esperavam ocupá-las muito em breve. No passado, a classe Média fazia revoluções sob a bandeira da igualdade, a fim de instaurar novas tiranias logo que as antigas caíam. Os grupos médios recentes, em contrapartida, proclamaram antecipadamente a sua tirania. O socialismo, teoria do início do século XIX, e que constituiu o último elo de uma cadeia de pensamento que remonta às revoltas de escravos da Antiguidade, mostrou-se ainda fortemente impregnado do utopismo antigo. Mas em cada uma das tendências do socialismo, que apareceram a partir de 190, esse objectivo de instaurar a liberdade e a igualdade foi sendo descaradamente posto de parte.

Excerto retirado do livro:

Teoria e Prática do Colectivismo Oligárquico por Emmanuel Goldstein - livro imaginário dentro do livro: 

1984 de George Orwell




Como todos os grandes livros... tão actual como quando foi escrito...